O mártir no primeiro e a morte no item final [Raul Drewnick]

Posted on 07/05/2017

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Não deve ter se explicado bem, porque meses depois de haver desertado da poesia, ainda os pássaros vêm chamá-lo de manhã. Pelo menos foi o que ele disse hoje aos amigos, com cara de mártir.

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Fazer hoje um soneto (bom ou mau) é fazer todos. Custa-me acreditar nisso, justamente eu, que outrora escrevi tantos pensando, ao terminar cada um deles, na inexplicável e continuada generosidade do destino.

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Um haicai deve durar o tempo exato para o pássaro surgir e passar sem ser atingido pela retórica.

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A uma narrativa, qualquer uma, deveriam bastar alguns substantivos e meia dúzia de verbos. Todo o resto são adornos da literatura.

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O velho Gepetto sonhou que havia engolido uma baleia e que dentro dela estava Pinóquio.

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Morrerem de sede seria o castigo apropriado para aqueles poetas retóricos que proclamam ter bebido da fonte da poesia.

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Tecnicamente estamos mortos desde a primeira respiração e vivos até a última.

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Para Vinicius de Moraes, o amor era só um casamento a mais.

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Você também pensou ter nascido para escrever.

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Falando francamente: essa história de viver só de literatura é séria, é?

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O crítico literário, se gasta um elogio com um livro, sente-se perdulário.

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Os parnasianos estragaram a poesia dando-lhe brinquinhos, colares, pulseiras, e prometendo-lhes a perenidade do mármore.

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Ser escritor é para quem tem ou alguma esperança ou esperança demais.

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Deveria ser proibida a melancolia. O primeiro efeito seria a extinção da abominável raça dos poetas.

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Alguns, três ou três e meio, atingem a imortalidade. Aos outros cabe a menção honrosa de um necrológio de dez linhas no diário local.

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Morrer deveria ser como estar com muito sono e ter tempo só de pedir a alguém que apague a luz.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

 

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Posted in: Crônicas