Os outros de nós mesmos [Mariana Ianelli]

Posted on 06/05/2017

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I

Quem vê cara às vezes também vê marcas do coração que sobem à cara, seu dono queira ou não queira. Aquele homem, por exemplo, aparentemente tão forte e orgulhoso da própria disciplina. Um par de décadas o separa do seu duplo sedentário. Quem o conheceu antes da mudança de rota, quem pode visualizar lado a lado os dois tipos, talvez veja alguma coisa no rosto do homem que também se perdeu. Alguma coisa que faz pena ter sido perdida. Um bom humor acima do desastre. Algum resto de inocência.

II.

A tentação de deixar de escrever. O cronista já se deixou embriagar por ela como uma tentação de morte. Deixar que os dias passem em branco. Não mais encher de palavras as coisas. Livrar-se da obsessão de transformar tudo em signo. Tentação de reinventar uma vida de pele e osso desangustiada de existências literárias paralelas. O cronista imagina a sobriedade de ser um, ou menos que um, oculto no silêncio dos dias devolvidos a si mesmos. O cronista imagina essa liberdade abissal. Então conclui que não merece tanto, por isso continuará a ser um cão que uiva para a lua, um escritor chamado Paulo Mendes Campos.

III.

Antes de abrir fogo contra a família, o pai deixou uma carta para o desfecho perfeito da tragédia. Nela dizia que todos somos loucos. Que basta uma ocasião para a loucura aflorar. Exatamente esse verbo, essa imagem de flor que tantos poetas já usaram para falar da morte, o homem usava para falar da sua loucura, que é de todos. Arrebentou, não tem volta. Como chamar pelo nome ou de volta à razão um homem que enlouqueceu? Ele não tem mais nome. É agora só o homem das flores abertas. Uma no coração, outra na boca.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas