Grilo falante [Madô Martins]

Posted on 05/05/2017

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Já não consigo ficar com o celular desligado. O companheiro, também. Só nos afastamos dele, quando vamos à praia. Mesmo assim, se espero resposta importante ou se a saúde de um próximo nos preocupa, o levamos para a areia. Nos locais onde seu uso é vetado, apenas tiramos o som, numa desobediência civil. Estamos irremediavelmente plugados.

Ativado, esse grilo falante crica incansável e nas horas mais impróprias, marcando presença. Não há nada mais detestável do que interromper uma conversa, para atender às chamadas, por vezes, desnecessárias; ouvi-lo tocar nas mãos de alguém durante a sessão de cinema, o concerto, a palestra, o teatro; ser testemunha de conversas íntimas, nos coletivos; ter o sono interrompido, porque a campainha tocou para nos destinar mais uma propaganda…

Ele também pode ser desagregador, provocando desconfianças e ciúmes. Que mulher não fica cismada, se o celular do parceiro toca (ou pisca) todos os dias à mesma hora e ele responde por escrito, sem deixar pistas sobre quem está do lado de lá? Mas também é ótimo auxiliar quando é preciso localizar alguém rapidamente, obter um dado com precisão, confirmar ou desmarcar compromissos, despertar com hora marcada, até mesmo, pedir socorro, como narram as notícias sobre sequestros frustrados.

É o mal necessário dos nossos tempos. Que adoro, quando a amiga me liga da França e podemos conversar de tão longe, em qualquer lugar. Quando um leitor manda mensagem, comentando a crônica mais recente. Quando o amado envia um recado, só com palavras carinhosas. Quando me chegam fotos do neto, vídeos curiosos, frases alentadoras, convites à reflexão.

E que detesto, quando recebo à revelia piadas grosseiras, cenas e relatos mórbidos, textos imensos sobre nada que me interesse, chamadas sem remetente, vídeos intermináveis… Mesmo assim, lá vai ele comigo o tempo todo: na hora do banho, quando desço as escadas para colocar o lixo fora, quando me isolo para escrever. Sempre atenta a seus sinais luminosos ou sonoros…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas