Avisos [Elyandria Silva]

Posted on 02/05/2017

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Profissão: Encanador

Amor: Eterno

Comida: Feijão com arroz

Um desejo: A ressurreição de um amor

O aviso veio de madrugada, na sarjeta de um céu acinzentado. Ele acordou passando mal, levantou, foi até a janela e abriu-a. Um sussurro suave acenou pelo pensamento. Conseguiu respirar fundo e quando se sentiu melhor sabia que ela havia partido. Num dia qualquer emerge a certeza da morte, pelos respingos frios de sensações que ela causa. Chico soube que sua mulher nunca mais voltaria naquela noite, por volta de 4h.

Salas de UTI em hospitais trazem medos vertiginosos. Não há tom de verde para aconchegar. Mesmo assim Chico planejava levar arroz e feijão para sua mulher, porque ela ficaria boa sim, tinha certeza. Falou aquilo depois que arrumou a torneira pingando em minha casa, enquanto o cheiro de comida da vizinha exalava pela esquina, remetendo a abraços transparentes que podem salvar.

O conserto durou pouco, os pingos perderam a calma e voltaram mais fortes dali a algum tempo. Quando o portão foi fechado ele relatou que estava bem, de uma forma estranha, um conformado cinza metálico. Os dois tinham planos com a poupança de anos de trabalho: trocar de carro e reformar a casa. Agora ele não quer outro carro e a casa vai ficar do mesmo jeito. O alívio maior foi por ter dito tudo o que queria, no último momento, embora ela estivesse dormindo profundamente, ligada a tubos que lembravam um bambolê destruído. Nunca brigaram.

Ele quase morreu junto, congelou a dor em ecos abafados. Pensou que a vida real era ficção, e que sombras azuis protegeriam sua família por toda a eternidade. Todos nós pensamos assim. A morte acabou com o casamento do Chico. Ele era feliz.

Depois da aposentadoria seria uma nova etapa, partiram de encontro ao futuro embora poucos dias os separavam da nova vida. Ela comandava tudo na casa e, dentro dele, quitava incertezas e cansaços diários. Talvez nunca imaginou que iria embora tão cedo. Depois que os chuviscos de luz a alcançaram, assustada, provavelmente, ficou preocupada com o pagamento da prestação do celular que comprou pouco tempo atrás. O carnê da loja ficaria esquecido numa gaveta muda. Voltou pela curva transparente do silêncio, cortou a linha dos dois mundos e mandou avisá-lo, para que Chico lembrasse de pagar a prestação do celular próxima de vencer. A moça da família veio em polvorosa dar o recado ao marido tão acostumado à inquietação da mulher.

Depois das lágrimas cristalizadas e do aviso do celular o contato cessou. Pai e filha não tiveram escolha senão continuarem a viver, pois assim é. Seguiram por uma trilha de saudade, com luz fraca, ouvindo o som de suas tagarelas vozes internas, tão doloridas quanto um som de violino num campo nazista.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas