Invisível [Rubem Penz]

Posted on 28/04/2017

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Atenção para a lareira, aqui é onde ligamos a hidromassagem, o acabamento em bronze antigo do corrimão da escada dispensa polimento, mosaicos de cerâmica marcam a divisão de ambientes, estas luzes indiretas criam um clima intimista…

Sim, corretores de imóveis são especialistas em pinçar aquilo que nos enche os olhos (enquanto esvazia os bolsos). No fundo, sabem que felicidade doméstica passa longe da sofisticação. Porém, uma agrega valor e a outra, não.

Quem faz a alegria do banheiro, por exemplo? Não é a pia em mármore, a argola dourada para as toalhas de rosto ou o vaso sanitário trapezoidal. Felicidade é luz direta e ventilação farta. Nada substitui um banheiro bem arejado. Banhos de luz e lufadas de frescor valerão mais do que o piso em porcelanato tão glorificado pelo vendedor. Ali, na rotina das manhãs, na saída do chuveiro, ao lavar o rosto, uma lição cotidiana da diferença entre o que é caro e o que não tem preço (claro, podendo, sempre é melhor termos os dois).

Lembrei-me disso no desabafo de um amigo bem achegado quando trilhou o caminho da minha área de serviço para me encontrar. Por ele estar vivendo a contingência de mudar-se para uma casa em fase final de obra (conheço o filme), ele olhou para o nosso tanque como o náufrago para as areias da praia. Lustre, freezer, forno, balcão ou cristaleira? Nada… A vida se decide no basal, na essência. Quase gritou: meu reino por um tanque! Ali, naquele operacional e malfadado recanto do lar, estava sua Pasárgada.

Amigo, disse-me, vocês não fazem ideia da falta que faz um tanque. O tanque é o centromédio do lar: pouco aparece e ninguém admite depender dele. Mas, sem um voluntarioso volante (sem um tanque), tudo fica mais difícil. Tanto que os tanques foram se chegando do arrabalde para perto e, por fim, para dentro de casa. No minúsculo apartamento, ele está lá: na cabeça da área, pronto para o serviço pesado.

Longe de mim fazer a apologia do pobre, mas limpinho; do simples, mas honesto; do improvisado, mas funcional. Só quero lembrar que tudo na vida tem (ou deveria ter) prioridades, e estas não precisam passar necessariamente pelo poder aquisitivo. A quase pronta casa do meu amigo é linda, luminosa, aconchegante. Tem uma vista belíssima e inexpugnável, ambientes bem bolados e todo o conforto que se possa pensar. Mesmo assim, o lar não pode ser considerado plenamente habitável sem um prosaico tanque na área de serviço.

Dá até uma vontade de mudar de atitude: ao receber visitas, levá-los pela casa a mostrar o quadro de luz, a caixa d’água, o aquecedor de passagem. Tudo antes da espaçosa sala de estar que, como diria o corretor, é composta dois amplos ambientes a formar um “L” com a sala de jantar.

O luxo é aparente, mas frio como ouro. O conforto é invisível, mas quente como o abraço.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Na RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas