Um cigarro à toa [Guilherme Tauil]

Posted on 25/04/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Ontem fumei um cigarro sem motivo pela primeira vez. Socialmente já devo ter pitado vez ou outra, eventualmente posso ter pedido um trago numa noite fria, e é provável que não tenha feito desfeita com o charuto cubano que me presentearam – mas nunca tinha acendido um cigarro à toa.

Não sei bem como aconteceu. Era um dia ruim, estava de mal com o mundo e pedi um cigarro. Meu amigo cedeu um dos seus, surpreso por achar que eu não fumava, sem desconfiar que eu estava começando naquele momento.

Mentiria se dissesse que não gostei. Fumar é a melhor forma de justificar um silêncio. As pessoas não suportam o sossego dos momentos vazios e se empenham em fiscalizar os calados: está tudo bem?, aconteceu alguma coisa?, precisa de algo? Durante muito tempo experimentei me esquivar do público limpando as lentes dos óculos. Analisá-las contra a luz, mesmo já desengorduradas, me garantia imunidade social. Mas ninguém questiona quem se demora calado num cigarro: compreende-se.

Fumar é a grande desculpa do solitário, que, apesar de expurgado pelas placas proibitivas da sociedade, tem entre seus semelhantes um código de ética muito humano. Não se nega fogo, independente da natureza do fumo, e não se nega cigarro, mesmo que só tenha um.

Já disse: não sei como aconteceu. Sei que precisava de um cigarro para aplacar o coração. Não haveria coração possível sem uma tragada. Entendo que, lá adiante, quanto mais cigarro, menos coração. Mas quando sentir meu fôlego se esvair, baterei no peito como o exausto Odisseu, pedindo um pouco de paciência: aguenta, coração, que já sofreste bem pior.

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Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas