Meus quatro pés [Cássio Zanatta]

Posted on 24/04/2017

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Quem me olha de fora pensa que eu tenho dois pés. De fato, já me vi no espelho e contei apenas dois, como os de uma pessoa comum. No entanto, preciso confessar uma coisa: eu tenho quatro pés. O direito, o esquerdo, o do meio e o entre eles. Desde que me conheço por gente, não sei como vocês não perceberam.

Um pé tem pressa, o outro vive brecando. Um quer viver aos saltos, o outro pesa meia tonelada. Um queria saber dançar, mas é um pé ao avesso; outro queria ser imprescindível ao time, o terceiro sonha viver em sandálias e o quarto, com a espuma do mar fazendo cosquinha. Dois sonharam em ser o camisa 10, mas nenhum quis ser surfista. Tem o que é medroso, mas prefere que o julguem cauteloso, e o que se acha destemido só porque escalou a primeira falange do Dedo de Deus.

Um quebrou o calcanhar, o outro esmigalhou um dedo, outro esfolou a sola no toco de árvore enterrado na areia e todos tiveram frieira de precisar se tratar com o doutor Mourão em Poços de Caldas.

Convivem o pé que subiu em árvore, muro, telhado, com o que não arreda pé. Nas férias, um quer praia, dois, mato, e tem o que sonha com uma caminhada em São Petersburgo. Para não ter briga, vamos todos para São José.

Um já fugiu de medo, outro pisou no pé da menina na dança­ (o quinto que seria Fred Astaire nunca que nasceu), mas nenhum teve a covardia de chutar alguém caído no chão. Todos mestres na arte de caminhar mais do que o necessário e de tropicar nas horas mais constrangedoras.

Nenhum gosta de dormir de meia. Todos se viciaram em massagem, pisar na grama e sofrem ao cortar as unhas. A sola do terceiro nunca ficou preta de lama, daí ele ser tão tímido. Quando pequenos, todos eram chucros e destemidos, tinham cascões nas solas de tanto andar descalço e correr nas pedrinhas. Hoje é essa vergonha.

Por aqui era o caminho de um que queria ser músico, por ali vagaria o ermitão e dois teriam percorrido os mesmos caminhos de que se orgulham. Em certos dias, os quatro estão irrequietos e se recusam a parar. Em outros, gostam de ficar para o alto e deixam para o braço a tarefa de dar o impulso na rede. Já pisaram em barro, poça, piche, chiclete, areia, aquilo do cachorro e dizem que até nas nuvens.

De um jeito ou de outro, esses quatro me trouxeram até aqui. Mais aos trancos que barrancos. Acho que foi um bom trabalho, estou satisfeito com eles. Mas ainda não me conformo com vocês não terem reparado em todos.

Agora o dilema: tenho tropeçado demais, estado em lugares que não quero, quero é chutar mais oportunidades fora. Acho que me cansei de tantos pés, dá muito trabalho cuidar de vinte dedos, vinte unhas, amarrar quatro cadarços e é cada vez mais difícil combinar os tênis. Percebo que vou ter que abrir mão (mão?) de metade, só vou poder seguir com dois.

Acho que sei quem vai ficar: os dos passos em que menos confio.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas