Gracinhas, chorinhos e outros diminutivos [Raul Drewnick]

Posted on 23/04/2017

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Admita-se: nunca houve poetas com a cabeça tão assentada quanto os concretistas.

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Que vocação policialesca têm os pronomes demonstrativos, sempre apontando: este, esse, aquele.

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Com tanto Andrade, o modernismo não parecia um movimento – parecia uma sociedade.

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Nas frases curtas, geralmente a única sabedoria consiste em poupar a paciência de quem lê e o fôlego de quem escreve.

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Quer seja de boa, quer seja de má vontade, morrer é uma responsabilidade.

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Não termos nada a dizer é às vezes a melhor notícia que pode receber nosso leitor.

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  Escrever é uma dessas insanidades que, depois de descobertas, precisam ser dia a dia confirmadas.

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Como prezamos nossa pretensa sabedoria. Se for preciso, recorremos à terceirização. Nunca erramos, somos induzidos a erro.

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Devemos ir aprendendo a nos exprimir com poucas e curtas palavras. É um exercício que nos valerá, no fim. O que teremos tempo de dizer? Talvez ai, talvez meu, talvez Deus.

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Pobres estrelas, tão mediocremente ofertadas por tantos rabiscadores de poemas a tantas musas de deplorável categoria.

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A melhor forma de sobreviver com a literatura ainda não está definida. A pior é ser escritor.

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Estava tão bem no seu papel de morto que só um morto legítimo seria capaz de desmascará-lo.

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O ócio é uma preguiça com pretensões intelectuais.

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Para ela, o amor era como um objeto que, dependendo do dia ou da noite, podia ou não estar em sua bolsa.

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Os barquinhos eram de papel porque eram gentis as enxurradas.

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Recolhia as estrelas em uma peneira, para que, escorrido o leite delas, fosse menos penoso transportá-las.

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Uma linha é uma linha ou um cacófato?

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Um haicai deve ter o tempo exato de ser, sem a tentação de retoques.

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Um poeta seria igual a uma pessoa comum, se uma pessoa comum tivesse a mania de ser poeta.

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Deus criou os homens e Shakespeare deu-lhes forma.

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Embora os escritores discordem, os maiores mártires da literatura são os leitores.

 

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

 

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Posted in: Crônicas