Cabelos longos [Mariana Ianelli]

Posted on 22/04/2017

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Agora já passam dos ombros. Carrego neles o quanto me lembro do melhor dos meus últimos quatro anos. Esses cabelos que pegaram sal do mar, cheiro de limão, fumo de cigarro, brilharam no sol da Serra da Piedade, amassaram-se dentro de um capacete pelos corredores escorregadios da antiga mina Felipe dos Santos, esses cabelos batidos pelo vento dos mirantes de Minas Gerais. Começavam a descer pelas costas quando ganharam o viço dos cabelos das mulheres grávidas. No escuro encobriram muita prece, no frio serviram de gorro improvisado, se apertaram tantas e tantas vezes, por dias inteiros, num coque alto, só as pontas soltas desleixadas num penacho. Numa manhã de lâmpadas frias, enfiaram-se dentro de uma touca cirúrgica e ali passaram horas imóveis como um bicho abandonado. Foram perdendo brilho, perdendo a cor, crescendo por descuido, desembaraçando-se entre os dedos, no banho, às custas de muito chumaço arrancado. Então se fizeram notar, finalmente, quando as mãozinhas de um bebê os agarraram no ar, entre colo e berço, como se fossem cordames de um navio na tempestade. Ganharam por isso cuidados especiais: vinagre de framboesa, perfume de verbena, as pontas aparadas e uma trança de lado. Agora se desenrolam à noite sobre a criança e a criança se aconchega sob um dossel de mãe castanho iluminado. De dia abrem sua rede de pescar atenção infantil, uma folha seca rodopiando pendurada entre os fios, uma joaninha, um fiapo de algodão, uma gota d’água. E continuam a crescer, a descer pelas costas. Quipos do Império Inca. Viveiro de jasmim. Toalha bíblica. Xale. São agora uma espécie de calendário. Um guarda-minúcias. Tenda de criança. Teia. Bicho de cobre.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas