Laços ou nós [Madô Martins]

Posted on 21/04/2017

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Nunca deixe sua casa ouvir que você quer se mudar, principalmente se seu casamento já dura 10 anos. Como toda criatura rejeitada, ela inicia uma série sem fim de pequenas vinganças que lhe tiram o sono, as economias, a alegria, enfim, a paz, até que você desista do plano ou corte a relação drasticamente, vendendo o imóvel pelo melhor preço oferecido e partindo sem olhar para trás, mesmo correndo todos os riscos de um negócio feito às pressas.

Um dia, cansada da escada, dos portões que estão sempre apresentando defeito, dos vizinhos barulhentos e outros senões, declarei o desejo de procurar nova morada. Após uma noite de intensa chuva, acordei com uma goteira exatamente sobre a cama. Vingança sutil daquela que me abrigou por uma década, viu-me ficar 10 anos mais velha, sujeitou-se a pinturas e trocas de móveis várias vezes.

Ao levantar, arrumei o quarto, como de costume, e coloquei sobre a colcha a roupa que vestiria depois do banho. Quando voltei a tocá-la, estava molhada. Na hora, não compreendi o que acontecia, até que os olhos bateram no teto: de uma rachadura, brotavam vários pingos, um atrás do outro, sem parar. Pingos cor de ferrugem, ameaçando o chão de carpete de madeira, que estufa com qualquer umidade…

Corri a providenciar baldes, panos e tirar o leito da linha de tiro, já imaginando os danos ao colchão e as manchas nas roupas minha e da cama. Avisei o síndico e aguardei socorro. Que só veio dias e chuvas depois, para desespero doméstico.

Enquanto isso, a vendetta continuava. Uma nova cachoeira surgiu no encontro do teto com as paredes da cozinha. O interfone parou de funcionar e, para atender alguém, só se a pessoa telefonasse antes; para abrir o portão, só descendo até o térreo, operação repetida à exaustão. Veio o técnico, e decretou que o problema estava no aparelho, logo, trocado às minhas custas…

Atualmente, as trincas pararam de pingar, mas estão lá, visíveis e amarronzadas, até que venha o pintor escalado pela administração. Enquanto isso, permaneço engessada, sem dar sequência ao processo de mudança. Como anunciar o imóvel neste estado?

O sol ainda entra por todas as janelas, o jardim encanta as visitas, mas esta já não é a casa dos sonhos. Avisei às paredes que nenhuma artimanha fará minha alma cigana permanecer aqui. A não ser que o teto desabe e me soterre, as tomadas me eletrecutem, a escada quebre meus ossos antigos… De casas injuriadas, pode-se esperar o pior.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas