Bolsa chocolate [Elyandria Silva]

Posted on 18/04/2017

1



A discussão já estava ficando acalorada entre o casal, ela queria levar os ovos mais caros, ele os mais baratos e, por consequência, menores. Ela, era só sorrisos (inclusive para mim) e disposição para encher o carrinho, ele, era só cara feia com cobertura de disposição zero, mais conhecida como “saco cheio”. De repente, sumiram do corredor e foram discutir num canto mais reservado, próximo dos amaciantes. Eu continuava ali, já com torcicolo, olhando para cima e caminhando para lá e para cá, muita indecisão sobre qual ovo comprar para quem. Foi a minha primeira vez na vida, digo, que comprei ovos de chocolate para dar na Páscoa. Cresci com a cultura das cestinhas. Quando criança acordava, no domingo, e, entre a sonolência e a realidade via, no chão, do lado da cama, a cesta, cheia. Era uma grande felicidade, sentava na cama, e começava a mexer para ver tudo o que tinha. As casquinhas de ovos pintadas a mão pela minha mãe e minha avó eram a grande paixão, vinha cheia de amendoim doce, feito em casa. Tinha bombons, ovinhos, variedade de doces e chocolates. Levava algum item da cesta, de lanche, todo dia para a escola. As casquinhas coloridas eram guardadas como mimos depois que comia o amendoim. Não me lembro de ter ganho ovo de chocolate, eu amava as cestas, coloridas, enfeitadas, papel crepom, veludo, coelhinhos de papel colados na frente. Antes da Páscoa tinha a missa, Domingo de Ramos, claro, com ramos na mão para serem balançados ao vento. Tinha procissão, ruas lotadas. Mais tarde, já crescida, ficava junto com minha mãe e minha avó, até tarde da noite, na cozinha, ajudando a encher as casquinhas com amendoim e a montar as cestas que seriam colocadas ao lado da cama das minhas irmãs menores. A essas alturas já havia descoberto que o coelhinho da Páscoa não existia, o que não me abalou muito. Descobrir que o Papei Noel não existia foi mais traumático.

Aprendi, há pouco tempo, com alguém que gosto muito, que Páscoa tem que ter ovo de chocolate, senão fica sem graça. Lá estava eu a cumprir o aprendizado. Decidi, peguei os ditos cujos com suas roupas douradas e coloquei-os no carrinho. Quando avanço, a certa distância,  vejo o casal do qual falo no início desta crônica. No carrinho, os ovos mais baratos. Ele venceu, pensei. Ela seguia atrás, desanimada. Fiquei com pena da moça. Quis morar no país da fantasia e receber o Bolsa Chocolate durante todo o mês de Abril. Quis ter uma cestinha ao lado da cama quando acordasse domingo, igual aquela da qual contei.

________

Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Anúncios
Posted in: Crônicas