Mensagem em uma garrafa [Daniel Russell Ribas]

Posted on 17/04/2017

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Esta é minha segunda crônica azul. Adotei um critério denominativo para os textos que produzo quando me hospedo no hostel de uma amiga. (Momento merchan: Chama-se A Casa Azul, em Teresópolis, recomendo em demasia). Além do título, há a interpretação do “azul”. Uma fusão entre duas cores fortes, resultando em algo suave, quase indeterminado, em que depressão e paz trafegam oscilantes. O Azul, em suma, traduz um ponto de renovação, em que as possibilidades se ampliam e complementam. É duro reconhecer que nossas vidas navegam assim.

Em meio a lamúrias e dores reais, nos perdemos em um oceano de fatores cuja urgência se iguala. O ponto de interseção se perde à primeira vista. Entretanto, é uma junção que resulta nesta criatura. É como se víssemos preto no lugar de azul.

O que é a Páscoa, a Pessach? A data em que comemoramos a passagem do corpo e do espírito. O triunfo da vontade humana sobre o coletivo. O espírito que supera a opressão e cujo símbolo deve ser transmitido para os povos para que a esperança renasça. Renascimento. A morte de um estado para o surgimento de um legado de vida. Tópicos paradoxais que se juntam para formar um estado maior, uma nova cor.

É interessante como não percebemos que somos parte de algo maior, comento com Maria leão enquanto tomamos café da manhã. Há um todo maior que nos conduz para um determinado lugar, mas estamos tão concentrados em detalhes que esquecemos como eles se encaixam. No domingo de Páscoa, a mãe de uma amiga morreu. Isabel escreveu um texto em homenagem. O senso de gratidão por ter tido essa pessoa em sua vida era tão impactante quanto comovente. Se não me engano, achava que a mãe ter partido nessa data, a da travessia e do renascimento, era apropriada para alguém que a tantos inspirou e ajudou. Foi uma postagem que traduziu o sentido, que demarcou a cor da ocasião. Era um azul tão profundo quanto leve.

A vida é infinita,  relembramos. Uma mensagem em uma garrafa, como na canção do The Police. Inesperado, mas que aparece para nós em um momento específico por uma razão. Se formos capazes de lê-la, ressurgimos diferentes e, quem sabe, melhores. É importante saber o que a trouxe? Não. Ela veio, é um chamado, é melhor você entender se não quiser perder algo grandioso. A vida é, e ela renasce em meio ao azul que envolve o mundo.

Dedico este texto a Isabel e Vivian.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas