Golpe na maternidade [Carlos Castelo]

Posted on 15/04/2017

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Tiaguinho, Pauleto e Decito combinaram de abrir as conversas no berçário quando a enfermeira da madrugada rendesse a da noite. Entre uma sair e a outra entrar dava um ‘gap’ de alguns minutos – o suficiente para combinarem a ação na maternidade.

Assim foi. Disfarçaram que dormiam como bebês saudáveis, os bracinhos em x.

Quando a mulher abriu a porta dupla de proteção e ganhou o corredor, iniciaram o plano.

É melhor pegarmos a grana do cofre amanhã. Daqui a dois dias as nossas mães têm alta. E aí, babau – disse Decito, que, de tão excitado regurgitou sobre o pano de boca. Pauleto concordou.

– É isso aí, não demora muito, e descobrem o nosso lance. Depois que criança do ISIS começou a atirar em prisioneiro, sujou pro nosso lado. É agir, petizada.

Tiaguinho não dizia nada. Estava entretido com a mamadeira.

Pauleto e Decito, até pelo pouco tempo que dispunham, não perderam tempo e começaram a traçar a estratégia.

– Eles nos deixam sozinhos aqui no meio do dia. Depois que mamamos aquela enfermeira bruaca da tarde dorme feito uma vaca velha. Eu pulo do berço, abaixo o teu e o do Tiaguinho. Vamos nos esgueirando pelo corredor. Se algum parteiro nos sacar, fazemos cara de fofinhos, e você mete a seringa com anestésico no calcanhar do babaca – detalhou Decito.

– Já estamos com a anestesia? – quiseram saber.

– Peguei do bolso daquele pediatra com cara de hipster.

– O doutor Lenhador?

– Esse babaca mesmo.

– Em que andar é o cofre? – indagou Pauleto.

– No andar de baixo do berçário.

– E como vamos pegar a bufunfa?

Decito era o líder e tinha resposta para tudo.

– E você acha que eu já não molhei a mão daquele servente que cuida do andar do Financeiro? O cara teve filho agora, paguei em Pampers, descolei 12 caixas de fraldas das grandes pro mané, tá dominado.

Pauleto abriu um sorriso banguela. Depois disse:

– Então é chegar e pegar a grana?

Decito se espreguiçou no berço e foi se jactando:

– E comigo já deu merda alguma vez, nenê?

Nesse momento, um cheiro horrível tomou conta do berçário.

Decito fez uma careta e balbuciou, enojado.

– Ih, é só falar em cocô que o Tiaguinho borra a fralda toda….Cagalhão!

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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