O vampiro comensal e outras esquisitices [Raul Drewnick]

Posted on 09/04/2017

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Depois do banquete o vampiro eructou vampirescamente e limpou a boca com o papiro.

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Na ironia você diz outra coisa para dizer o que queria.

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Ele se declarou inocente, mas, ao puxar o lenço para enxugar o suor, escaparam do seu bolso catorze pássaros que, embora de porcelana, se puseram a esvoaçar pela sala do tribunal tão inequivocamente que ele nem tentou continuar negando: era um sonetista.

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Há os poetas e há os poetas de carteirinha. Os primeiros fazem poesia; os outros fazem reuniões e manifestos.

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Desculpem-me se venho falando demais em morte. Cada época tem seus frutos.

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O pior para um escritor não é sentir-se de repente vazio. É perceber que sempre esteve assim.

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Sinto cada vez mais próximos os passos da Morte. Sou velho, mas não sou surdo.

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Tenho sempre alguma tristeza em meu acervo, para consumo próprio.

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O mais comum e intransferível de todos os amores é o amor-próprio.

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Talvez tenhamos sido melhores, um dia. Não é o que diz quem nos conheceu.

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As reticências mudaram de ideia no meio da frase e ficaram num ponto, o final.

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Sou filho de poloneses pobres, mas não me custaria muito reconhecer que sempre escrevi mais por orgulho que por necessidade.

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Espero sempre que reconheçam em mim virtudes que nem eu mesmo sei quais possam ser. Talvez a ingenuidade seja uma delas, talvez seja a única.

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Entre um soneto e outro soneto, disfarçada entre os tercetos, clandestina entre os quartetos, a vida passa despercebida aos olhos do poeta.

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Todo provérbio deveria ser convocado a pôr a mão sobre a Bíblia e jurar dizer a verdade, somente a verdade, toda a verdade.

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Como é antipático um provérbio quando, depois de contrariado, nos olha com aquela cara de sábio e nos diz: eu não avisei?

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Há escritores tão presunçosos que, se o próprio Deus lhes oferecesse ajuda, aceitariam uma fatia de pão, talvez, mas jamais um parágrafo ou sequer uma frase.

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Uma crase só não é mais presunçosa que um poeta porque não faz sonetos nem pode, por disposições estatutárias, disputar uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

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As rimas até hoje não resolveram as divergências que têm desde o tempo no qual eram consideradas indispensáveis à poesia. As ricas abominam as pobres, e vice-versa.

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Enquanto houver um gato, estará justificada a existência de pelo menos um sofá.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas