O lugar de Judas [Mariana Ianelli]

Posted on 08/04/2017

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Mariana Ianelli*

Daqui a uma semana ele será pendurado nas esquinas. Será surrado, cuspido, enforcado. Tocarão fogo no seu corpo de palha e o fogo desafogará parte do ódio coletivo. Quem vai pensar que além de mesquinho e traidor, Judas foi alguma vez o filho amado, o amigo, o apóstolo preferido?

Os meios tons da humanidade de Judas não inspiram fama. Mesmo assim, ou por isso mesmo, Frieda Tchacos insiste em tentar reabilitar para a história a imagem do apóstolo maldito. Frieda se sente convocada a essa tarefa desde que o Evangelho de Judas foi parar em suas mãos pelo preço de 300 mil dólares. Um Evangelho que revela um discípulo fiel a quem o próprio mestre teria confiado a missão da emboscada. Aquele que aceitou seu estigma na história da Paixão como uma segunda cruz sem alarde. Uma cruz sem topo de Gólgota nem altar. Um duplo de Cristo sem santidade, feito para balançar nos postes e nas árvores.

Tarefa inglória, essa de Frieda, ambígua demais para o gosto popular, mística demais para ser institucionalizada. Imaginar que a malhação de Judas, que o Judas de mil carantonhas diabólicas ao longo dos séculos, seria uma espécie de arquetípico bullying histórico. Pensar que o beijo no horto seria o selo de um acordo secreto, de sacrifícios espelhados. Isso confunde, incomoda, desnorteia a vazão do ódio, embaça o alvo da acusação das hordas. Judas e Jesus juntos, no mesmo prato da balança, quem ocupa o outro lado? Quem ocupa o lugar de ser linchado? Ou por acaso esse é um lugar para ficar vago?

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas