Óculos bifocais [Daniel Cariello]

Posted on 06/04/2017

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Daniel Cariello*

Talvez seja melhor você usar óculos bifocais, sentencia o oftalmologista, cujas palavras ganham ainda mais peso por precisarem abrir espaço entre os prateados fios de seu bem fornido bigode para poderem escapar da boca, um bigode desses merece ser escutado com atenção, penso eu, de dentro de minha rala barba.

Bifocais, doutor?, bifocais, meu jovem, levanta o olho pra ver longe, abaixa pra ver perto, serve pra admirar estrelas e ler livros, você está com a vista cansada, passou dos quarenta, daqui pra frente só vai piorar, vaticina o dono do vetusto esfregão suspenso sob as discretas ventas, um oftalmologista que não usa óculos, fato que me faz voltar sobre minha primeira impressão e coloca uma dúvida sobre sua experiência no assunto, pois nesse mundo não se pode menosprezar a importância do empirismo.

Adivinhando o meu pensamento, ele diz vou te provar novamente, lê ali aquelas letrinhas na parede, F, O, R, A, T, E, M, E, R, respondo, e agora as miúdas nesse papel, G, O, L, P, I, S, T, pode parar, a intenção é ótima, mas não é nada disso que está escrito, pra corrigir, só mesmo com duplo foco, vai fazer ou não vai fazer?

As palavras do médico possuem a densidade e a imponência do bigode que atravessam, mas nem assim me convencem, depois de aceitar óculos bifocais, penso, a decadência é rápida e o passo seguinte será fraldas geriátricas, doutor, vamos fazer só pra ver de longe, tem certeza?, tenho.

Uma semana depois, o sujeito da ótica liga, seu Daniel, seus óculos estão prontos, ele diz, pode vir buscar, vou buscar, experimento, só vejo longe, aqui na frente ficou tudo embaçado, é isso mesmo?, reclamo, é isso mesmo, o sujeito da ótica responde, pra ver de longe e de perto tinha que pedir pro oftalmologista receitar bifocal.

O sujeito da ótica levanta os ombros e os cantos da boca em demonstração tanto de solidariedade quanto de não posso fazer nada por você, seu Daniel, coloco os novos óculos, tropeço na saída da loja, não vejo o maldito degrau, tiro os novos óculos e os guardo na caixa, onde agora descansam a maior parte do tempo, ficam tanto por lá que já nem sinto mais falta deles.

Isso me leva a crer que, apesar dos fios brancos do doutor Bigode e de todo o conhecimento da medicina, minha visão entrou numas de melhorar, rio feliz, enquanto perco novamente o ônibus, essas placas com os números estão cada vez menores, diabos.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas