Frascos [Elyandria Silva]

Posted on 04/04/2017

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Elyandria Silva*

Um livro: Contos do nascer da Terra, de Mia Couto.

Uma cor: a que não se mistura com nenhuma outra.

Um mistério: como compactar e guardar longos anos perdidos.

Uma bula: Nimesulida

Foi uma bula com esse nome que estava aparecendo, dando a impressão que cairia a qualquer momento, num canto indiscreto da porta entreaberta, deixando várias caixas, e alguns frascos, à mostra. Era uma farmácia particular estabelecida no banheiro. Bisbilhotei de cima a baixo. Pequenos vidros com líquido pela metade, com as bordas da tampa amarelada, caixas rasgadas, bulas soltas dobradas fora da marca indicada, cartelas transparentes de comprimidos já tomados. Saí do banheiro e voltei para a sala das conversas aleatórias. Foi um convite informal. Um jantar simples. Apenas pedi licença para usar o banheiro.

A farmácia particular, muitas vezes localizada no banheiro, é criada a partir de uma dor de cabeça, ou de uma gripe, ou de uma febre, ou de todos esses sintomas juntos. Relatar para a família que senti dor, passei mal durante a noite e não tinha nenhum remédio em casa para tomar gerou uma onda de protestos, indignações, e uma lista de nomes de remédios que poderiam ter salvado a noite de sono. Sugestões acatadas e a promessa de fazer como todos ali, ter uma pequena farmácia em casa, para emergências. Ganhei comprimidos de presente, avulsos, em embalagens com pontas bicudas e cortantes, de cujo nome só restavam duas ou três letras para tentar adivinhar a palavra completa. Após o esquecimento seria difícil lembrar o nome completo e para que ele serviria. Tempos depois aconteceu. Os comprimidos abandonados e substituídos pelos novos foram abandonados por não terem identificação, perdidos numa cartela que já foi cheia. Ninguém sabe mais o que ele cura. No verso algumas letras se apagaram.

Aquele foi o primeiro a habitar a pequena e nua prateleira do armário vertical do banheiro. Nunca foi tomado nenhum dos comprimidos. Lá permaneceu provavelmente soterrado pelos tantos que vieram mais tarde.

E então, um dia, você descobre que adquiriu o hábito de comprar caixas de remédios para diversos males – os que já teve, os que está tendo, e os que talvez nunca tenha – ou para sintomas que vieram e passaram despercebidos, para dores cartesianas que nunca avançaram o limite da física quântica. Caixas com letras grandes, que não se completam umas com as outras em tamanho, e que se tornam peças de museu quando o prazo de validade se iguala a números de cemitério. Quando isso acontece, ainda assim sinto pena de jogar a caixa fora.

Ter uma pequena e não planejada farmácia em casa trás a falsa e, quem sabe, doentia, esperança da melhora instantânea. Trás a doce segurança de não precisar sair correndo para um hospital quando os sintomas podem ser controlados, não se sabe até quando, pelos remedinhos que estão a um toque da mão.

Ler Mia Couto, lembrar-se da cor que alguém citou, imaginar formas delicadas de se dobrar em pedacinhos os anos passados para organizá-los melhor na memória e encontrar na Nimesulida ou no Buscopan soluções desconcertantes e pontiagudas de aliviar uma dor é, no mínimo, ilusório, mas também prazeroso. Por um instante tive a certeza de que não, necessariamente, precisaríamos ser feitos de carne e osso.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas