O senhor já foi à Bulgária? [Daniel Russell Ribas]

Posted on 03/04/2017

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– Não, mas soube que lá enfrenta um surto de febre amarela.

– Sim, é verdade. Há uma preocupação genuína por parte do governo, até um jornalista foi demitido por denunciar isso.

– O que houve?

– Os bulgoxinhas costumavam espantar insetos incômodos batendo panela na janela, o que causava o afastamento dos mesmos. Então, houve silêncio e bichos peçonhentos assumiram quando os bulgóricos amarelaram.

– Pela febre?

– Não, pelo surto que a antecedeu.

– O que provocou esse surto?

– Veja, os bulgários são muito sensíveis a alterações. Isto é, quando faz calor, derretem como representantes eleitos, e quando esfria, congelam como golpistas interinos. Época é líquida e sólida ao mesmo tempo na Bulgária, o que torna a química de suas crianças única e misteriosa, como o globo e o dia ou a receita da Cloaca-Cola.

– O que é isso?

– Um refrigerante bulgarês. Mas não se toma, se cheira. Vem em pó.

– Foi isso que causou a doença no país?

– Há muitos motivos. Como mencionei, eles são por demasiado influenciáveis, logo uma suspeita recai sob seus hábitos alimentares. Eles almoçavam folhas de veneno com papelão grelhado ou assado e de sobremesa doces de amendoim cancerígeno. Aparentemente, quando descobriram o que consumiam, houve uma comoção.

– Vomitaços?

– Não, o preço nos supermercados despencou e a procura por papelão foi tamanha que esgotaram os estoques no mesmo dia. A ingestão de tóxicos estragados em excesso e em tão pouco tempo é uma hipótese aventada.

– E o que mais?

– A situação econômica vai mal. Há uma crise financeira sem precedentes, e os bulgaroteiros estão endividados. O governo se comoveu de tal modo que permitiu que sua população sacasse suas contribuições com antecedência para gastá-lo em itens de sobrevivência como telefones e pistolas cromadas.

– Mas o governo reporá o dinheiro?

– Não, tirará mais ainda e os obrigará a trabalhar após a morte para cobrir o ônus, além do parcelamento do caixão e da taxa de exumação. Há sacerdotes vodus trabalhando nisso agora. A reanimação de cadáveres entrou em voga desde a última reforma ministerial na Bulgária.

– E onde está o governo?

– Não é uma música da Shakira?

– Não, esta é “Donde estón los ladrones”!

– Ah, governo, claro. Bom, sabe aquela fala do filme “300”, quando Leônidas berra que “Esta noite jantaremos no inferno”? O governo foi pra lá, pro inferno comer churrasco. Carne de fora, temer jamais.

– Parece um lugar horrível. Por que me sugeriu ir para lá?

– Bom… O senhor já foi ao Brasil?

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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