Letrando Django [Carlos Castelo]

Posted on 01/04/2017

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Carlos Castelo*

Desde muito cedo fui um ouvinte atento do jazz cigano.

Conheci-o numa viagem pela Europa com a família, quando tinha 17 anos. De lá pra cá só cresceu a minha paixão pelo gênero inventado por Django Reinhardt.

Recentemente o gipsy jazz se espraiou. E também chegou ao Brasil. Piracicaba, aliás, com seu competente festival de manouche, é o centro do estilo por aqui.

Graças a isso acabei conhecendo o Gilberto Syllos, cujo alter-ego é o Seo Manouche. O personagem tem diversas particularidades que me causam espécie. Uma delas é que trata-se de um dos raros contrabaixistas que é band leader. Ou seja, num universo em que todos querem ser Django Reinhardt, Gilberto optou por ser Louis Vola. A outra é que Seo Manouche une dois elementos pelos quais me interesso sobremaneira: gipsy jazz e humor.

Sem perda de tempo propus-lhe um almoço. Durante o repasto, a química aprofundou-se. Os gostos musicais eram muito semelhantes, os humoristas do peito quase idênticos, assim como a mania mútua de assistir documentários. Elogiei sua ideia de criar um manouche para o hino do XV de Piracicaba, time da cidade-berço do gênero cigano no Brasil, a hilária “Já que tá que fique”.

Ao entrarmos nas sobremesas já enveredávamos por uma provável parceria Gilberto de Syllos / Carlos Castelo. Afinal de contas, por que não letrar alguma melodia manouche do mestre Gilberto e incluí-la no playlist de seus shows? Que espécie de humorista não pensaria numa tentadora hipótese dessas?

Sai do restaurante com aquele desafio específico. No fim do dia escrevi uma letra inédita e mandei via whatsapp para Seo Manouche. Antes da meia-noite, o aplicativo apitava em meu celular com a nossa primeira criação tocada ao violão, já com a linha de baixo e tudo.

No dia seguinte uma segunda ideia me ocorreu e lancei mão mais uma vez do whats para fazê-la chegar ao contrabaixista. Ele não me decepcionou, no final do dia repostava com uma segunda parceria consumada.

Em suma, após 72 horas já havíamos trazido à luz três canções e uma quarta estava por se concluir. Um fato desses não me ocorria desde quando comecei a escrever para o Língua de Trapo, na faculdade de Jornalismo, nos meus dourados 20 e poucos anos. O resultado pode ser atestado por você no cd que celebra nosso casual encontro: “ Cavaquinho de Itu”. Numa plataforma digital perto de você.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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Posted in: Crônicas