Compartilhar a vida [Marco Antonio Martire]

Posted on 29/03/2017

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O senhor resolveu sentar-se na mesa mais externa da lanchonete, e dali passou a admirar o movimento da rua, bebericando um suco de acerola com laranja, mordiscando pães de queijo. A moda de ficar por ali nem teria sido notada, não fosse um camelô de bugigangas, que ao passar por aquele senhor assumiu ares de profissional muito surpreso e fez questão de cumprimentar o homem, a quem chamou insistentemente de “compositor”. Os dois tiraram duas ou três selfies animados, quem frequentava o lugar passou a enxergar o homem, sentado naquela mesma mesa quase todos os dias de sol.

O cara foi virando atração. Desavisados apontavam da calçada, a garçonete ia atender o homem sempre rapidamente, pegou fama entre os camaradas sobretudo o apelido: o compositor. Mas compositor de quê, ora essa? De música, mas que músicas? Queria eu saber a qual gênero musical o nosso artista se dedicava. Seria um sambista de primeira? Seria um letrista de pop/rock? Seria o roteirista daqueles sertanejos? Ninguém conseguia me responder, mas a imagem sobrevivia, o povo dos sucos gostava de vê-lo sentado à mesa, preocupado com a existência dos pombos e com o passeio dos cães.

É claro que reclamo do cara feito um enciumado, de apreciar aquela estada na lanchonete e não ter que me apressar para casa, atrás de mais uma leva de capítulos daquela série nova de ação. Na rua, sob as ordens da lei, ficam sós os vagabundos pela manhã, e os bêbados à noite! Que engano.

Tem uma turma que considera dever de cidadania ocupar a rua, berra com razão de cima dos coretos das praças que a cidade é nossa. Sim que a cidade é nossa, mas ocupá-la não é projeto de cidadania, é viver, é viver, amigos, é viver. O compositor lá da mesa da lanchonete concorda, talvez crie mesmo uma canção, que na voz de uma fina intérprete de nossa MPB — seja samba, rock ou sertanejo — ocupará as horas dos ouvintes. Estará criada a trilha sonora de nossas ruas, as calçadas serão o cenário polivalente, os pedestres os personagens sem vergonha. Os heróis e heroínas. A vida da gente servirá de saga, servirá de drama, servirá de comédia, quem vai rir, quem vai chorar, e nossas histórias terão sido contadas e ouvidas. Saberemos de nós mesmos então mais do que os marqueteiros nos escritórios, mais do que os jornalistas nas redações.

Todo esse movimento porque se resistiu a ficar apenas em casa, entre quatro paredes fortuitas. Fugiu para descansar na rua, foi fazer hora, fui tomar sol, fui espairecer e encontrou quem? Nem que seja um pálido olhar, quiçá uma conversa com palavras! E se tornaram amigos. Compartilharam a vida.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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