Epopeia do desajustado [Guilherme Tauil]

Posted on 28/03/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

De todo tipo de gente com que esbarro na rua, o desajustado é o que mais me comove. Não estou falando do desajeitado nem do descolado: o desajustado é aquele que, andando um pouco torto, sempre meio pra lá, meio pra cá, vive uma epopeia cabisbaixa que não interessa a ninguém.

O desajustado nunca sabe muito bem por que faz o que faz. No primórdio da história, não sobreviveu à primeira caçada com sua tribo, porque era míope.

O desajustado não se sente pertencendo a nenhum lugar exceto sua casa, e fica incomodado quando almoça no shopping. Para ele, banheiro público só não é pior que digitar em teclado alheio.

O desajustado não costuma cumprimentar com um aperto de mão firme, olho no olho, sim senhor. Prefere dar um oi coletivo para evitar o desconforto de oferecer aos outros a sua mão suada.

O desajustado pode ter milhares de seguidores nas redes sociais, mas ninguém para desejar saúde quando espirra. Pensa diariamente em bloquear o perfil do Facebook de quem detesta, mas na hora de livrar-se do desafeto, se compadece com a foto dos gatinhos na capa e resolve perdoá-lo – até dali uns dias, quando o ciclo começará novamente.

Na última manifestação, o desajustado quis pular a catraca do ônibus, na hora pensou que não ia dar certo, nunca foi de esportes, mas depois achou que conseguia e acabou entalado no vão, interrompendo o fluxo dos rebeldes.

O desajustado abre o jornal e percebe que as coisas vão mal, e pula logo para os quadrinhos, que sempre o fazem rir, mas só um pouco, aquela baforada sequencial pelo nariz.

Nos relacionamentos amorosos, o desajustado é frequentemente mal interpretado por seu par, que não entende suas tímidas demonstrações de afeto. Num gesto de amor, é capaz de se adaptar ao modo que a companheira passa manteiga: se ela é do tipo que corta em pedacinhos, ele abrirá mão da certeza de que o correto é raspar uniformemente, sem jamais usar isso como argumento numa discussão.

O desajustado não sabe dançar, mas à noite, sozinho em seu quarto, se permite requebrar ao som de alguma trilha sonora dos anos 80, porém basta se surpreender com sua descompostura no espelho para voltar ao normal.

Se o desajustado for bonito, será daquele bonito exótico, cujo rosto vive numa constante tensão estética, onde qualquer espinhazinha é suficiente para desfazer a harmonia. Se for feio, será do tipo interessante, acostumável, nem dá para dizer que é feio olhando desse ângulo.

O desajustado não crê em superstição, nem percebe que passa debaixo da escada. Mas quanto à astrologia, prefere não opinar. Tem receio de se envolver com qualquer coisa que esteja aí há muito mais tempo do que ele – os astros, deus, diabo. Sem muito fôlego, não se opõe a nada que interfira na existência da humanidade.

O desajustado tem seu time do coração, mas não faz ideia do nome dos onze – às vezes acompanha os jogos, às vezes prefere assistir a um documentário sobre orquídeas.

O desajustado fica um pouco sem graça na hora de bater palmas, e até hoje não sabe se deve cantar parabéns quando o aniversariante é ele mesmo. Tem receio de soar pedante, mas também não quer ser o falso modesto e, por isso, canta umas palavras soltas, pega só o rabicho dos versos.

O desajustado não vê muita tevê, mas quando se senta no sofá é capaz de passar horas só mudando de canal. Reclama da programação, pergunta a si mesmo se está pagando o pacote a cabo para ter uma porcaria dessas, mas no fundo gosta de ficar apertando o mesmo botão. É mais terapêutico que estourar plástico bolha.

O desajustado gosta de caminhar pela cidade, mas só uma voltinha pelo centro. Não é muito de conhecer lugares novos. É capaz de passar a vida sem se aventurar em outros bairros.

Quando inspirado, o desajustado pode debruçar-se na janela e ter uma ideia genial para um poema. Mas como estará um pouquinho aborrecido com a vida, vai anotar a sugestão num comprovante de depósito bancário, que depois será usado para ajustar o pé da mesa da cozinha.

Que inveja do desajustado, que passa despercebido pela multidão.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas