Preciso ir ao shopping [Cássio Zanatta]

Posted on 27/03/2017

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Preciso ir ao Shopping Bourbon. Deixei de viajar para o mato, cancelei a tomografia de tórax, o computador vai ficar mais um dia quebrado, porque eu preciso ir. Não gosto de shopping, prefiro tão mais andar na rua, onde a gente pode tomar garoa, afundar o tênis na poça, ser assaltado à luz do dia ou topar com o Exército da Salvação. Mas o que eu quero, só tem no Shopping Bourbon.

Impossível ir de carro, certas plenitudes só se alcançam caminhando. Há muito vidro e alumínio no Shopping Bourbon. O que não há é alguém que eu conheça, deve ter sido barrado na entrada. Onde já se viu um lugar com centenas de pessoas e nenhuma conhecida? Cinco décadas nesta cidade e ainda acho estranho.

Os manequins estavam mais elegantes do que eu, fiquei constrangido com suas poses, sorrisos e certezas. A luz desce a escada rolante enquanto subo, os degraus sobem, a luz desce, um por um. Essas coisas a gente só repara no Shopping Bourbon.

Há um imenso lustre no saguão principal que nos remete imediatamente aos castelos franceses, o que talvez justifique o nome do lugar. Claro que aquele brilho não é de cristal, é vidro fajuto, o que não deixa de ser um insulto à dinastia Bourbon. Mas sejamos justos: na verdade, sua alcunha é mais nobre: Bourbon Shopping. Eu que, plebeu que sou, inverto o nome.

Aviso aos leitores que a praça da alimentação não é uma praça como a gente conhece, com árvores, bancos e pipoqueiros, mas com muitas mesas, sushis e hamburguers. Não há folhas forrando o chão, nem minhocas para atrair as pombas que, não se sabe como, vão parar nessas praças e ficam dando voltas no mesmo lugar, mais perdidas do que já são. Mesmo os elevadores, demoram mais do que os normais, só servem a quatro andares e não fazem vento. Faz falta um vento no Shopping Bourbon.

Por que quase todos os cinemas da minha cidade migraram para os shoppings? Qual a relação entre Hollywood e a Riachuelo, Cinecittà e o Andiamo? Posso estar errado, mas parecia mais divertido sair para a rua, entrar no primeiro boteco e discutir o filme, do que comentar os preços das vitrines e constatar qual aceita Visa.

Sempre há uma esperança de que o som ambiente toque Pixinguinha, não uma música concebida para aborrecer o cidadão contribuinte. E por que tanto a senhora Almeida é requisitada a comparecer à recepção, seu neto Gabriel a espera (já meio apreensivo, suponho). Nessas horas o senhor Almeida se finge de morto (se é que já não precisa fingir) e fica olhando as meninas no corredor, sorridente, sonhador. Tome tenência, senhor Almeida: isso é exemplo para seu neto Gabriel?

Não vim de carro mas a fila para pagar o estacionamento me desanima mesmo assim. Há sempre uma senhora que passou a fila inteira falando mal do alheio e, quando chega sua vez de pagar, não encontra o papelzinho do estacionamento. Na procura, deixa cair da bolsa a carteira, três balas de canela, uma escova de dentes verde, um canivete (!) e trava o bom andamento do mundo por oito minutos.

Não encontrei o que procuro. Foi perda de tempo ter vindo ao Shopping Bourbon. O ar-condicionado não refrescou muita coisa e as ofertas decepcionaram. Fui miseravelmente enganado e não há metrô por perto. Podia ser pior. Eu podia, por exemplo, ser um autêntico e ofendidíssimo remanescente dos Bourbon.

Saio para a rua, tomo chuva e pego um resfriado. O resfriado mais reles e plebeu do mundo. Bem feito. Meu lugar não é o Shopping Bourbon.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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