Exortações e alguma coisa mais [Raul Drewnick]

Posted on 26/03/2017

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Raul Drewnick*

Falemos baixo, acostumemo-nos. No lugar para onde amanhã ou depois iremos, tudo que nos será exigido será o silêncio.

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Anoiteçamos com a amável resignação das árvores. Não perturbemos a quietude nem com a queixa de nossas folhas nem com o alvoroço de nossos frutos.

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Tenhamos pena de nós. Nós a merecemos. Quem com mais justiça pode reivindicá-la senão nós, depois da ruína de todas as nossas ilusões e do espetaculoso desmoronamento de nossos ideais?

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Tenhamos a coragem de pedir os aplausos que desde o início sempre procuramos, apesar de em nosso rosto sempre havermos ostentado essa hipócrita modéstia.

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Se estamos vivos é por generosidade do amor, que julga não termos sofrido ainda o bastante por ele.

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Alma deveria ser algo que só os passarinhos e poetas como Mario Quintana e Manoel de Barros merecessem ter.

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Creio que a arte seja a melhor justificativa para a existência do homem. Não me perguntem por quê. É uma questão de fé.

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A banda de Chico Buarque não existiria sem o bolero de Ravel.

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Talvez não sejamos tão indignos quanto pensamos. Não furtamos nem matamos nossos irmãos, se bem que provavelmente o fizéssemos, se isso nos garantisse a glória pela qual nos furtamos e nos matamos.

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Na casa de mulheres apaixonadas por cachorros e gatos, dificilmente sobra espaço para um homem.

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Um dia talvez a pessoa certa te leia, e a centésima garrafa justificará as noventa e nove anteriores lançadas às ondas.

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A beleza passou a procurá-lo com tanta obstinação que ele já não dormia, para estar todo o tempo apto a transcrevê-la.

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Difícil, hoje, é encontrar quem não seja escritor ou assim não se declare.

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Toda velha guarda se apresentou um dia como vanguarda.

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Como assim? Pó? Tudo? Até aquela parte de nós, aqui na nuca, que ainda se arrepia ao ouvir os Beatles?

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A pergunta é: será que escrever é mesmo tão importante assim? A primeira vez que a fiz foi há seis décadas.

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Todo escritor deve ter a convicção de que os leitores querem ouvi-lo. Depois, deve ter a sabedoria de duvidar dessa convicção.

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Escrever é uma dessas manias que, quando bem-sucedidas, recebem o nome de vocação.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas