Carlos Pateira escreve a António Lobo Antunes [Mariana Ianelli]

Posted on 25/03/2017

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Mariana Ianelli*

Uma sala de espera de hospital, que rica paisagem humana para um cronista. Ele, António, de famoso sobrenome, pensa-se ali camuflado entre os que esperam enquanto vai levando cada coisa que vê, cada coisa que fotografa a partir do que vê, para dentro de sua crônica. Não há direito de imagem que o proíba de fixar o rosto e os modos de cada um naquela sala. Não há pudor que freie esse registro, não só de aparências, também de profundezas puxadas à superfície pelo monstro da espera.

António descreve a solidão da gente do limbo estacionada entre sessões de radioterapia e a vida, a vida longe dali, penhorada. Ele sente a proximidade da vergonha caso amanhã ainda esteja vivo e os demais do limbo da espera não. António pressente essa vergonha diante da moça magra e calada cujos olhos gritam. Até então ele não sabe que a moça se chama Ana Leonor. Os predicados de suas personagens são dados pela fotografia do instante, é tudo quanto os identifica: “a rapariga da almofada”, “o senhor de fato completo”, “uma africana de óculos” que chora, um sujeito “a arrastar uma das pernas”. Todos numa sala onde “só os olhos gritam”.

Publicada na revista Visão em 7 de junho de 2007, em Portugal, a crônica abriu a reservada sala dos doentes para quem quisesse entrar. Foi então que o pai de Ana Leonor reconheceu a si mesmo entre parênteses e sua filha naquele instantâneo. Reconheceu e reviveu no requadro daquela tarde uma eternidade de lutas. Uma vez que sua dor se fez pública, o personagem do cronista, convertido em leitor da crônica, diz seu nome e sobrenome: Carlos Pateira. Agora é ele quem escreve a António Lobo Antunes.

Agora o personagem passa ao outro lado, é sua voz que assoma, como um rosto. Carlos alcança o gatuno de vidas anônimas que o expôs e faz que esse gatuno veja de perto e mais fundo do que foi feito o pequeno gesto pungente que António surrupiou de uma sala de hospital para sua crônica: um pai ajeitando uma almofada na nuca da filha que espera. De quantas perdas desabrochava essa nuance de cuidar. De quantas despedidas já acumuladas, de quantas ausências engolidas em seco nesta vida, que, dada de graça, desde que é vida, não para de debitar.

“António, passou-te então pela cabeça que tinhas despachadinha a obrigação periódica de cronista de luxo e que passavas, de mansinho e incólume, pela coisa?”… “Por que carga d’água é que, na ocasião, não encontraste melhor destino para os teus sentidos do que observar uma chusma de condenados?”… António que responda, se é que pode. Que António responda a ele, Carlos, ontem personagem a cumprir diligentemente seu papel, hoje autor de uma carta aberta, seu livro de estreia, que ele teria dado tudo para que fosse ficção.

Pois não é que a fotografia daquele instante numa tarde do ano de 2007 no hospital Santa Maria estava repleta de livros da vida, que, além de terem rosto, tinham vozes? Ainda que numa sala onde só olhos gritassem. E não é que o flagrante de uma espera desesperançada numa crônica rebentou em algo mais? Carlos Pateira abre seu livro da vida nas encruzilhadas. Lembra de ser ainda um menino quando, em águas encrespadas do Atlântico, se soube uma migalha no mundo. Lembra de ter estado na guerra, no meio dos terrores de uma guerra, tal como António. Carlos na Guiné, António em Angola. Carlos se lembra da mãe, se lembra da filha, e de como pesa continuar aqui, de pé, disposto a viver, entre a ausência de uma e outra.

“Uma de duas: ou eu estou errado e tu corriges-me ou, questiono (abusivamente…) eu, por que não havemos de fazer por merecer o privilégio de fruir a vida que tantos, e ela, tudo dariam para ter?”. Ela, Ana Leonor, cujo combate perdido cedo nesta vida não devia inspirar vergonha em António. É o que Carlos Pateira pede a António Lobo Antunes: que ele deixe de lado a vergonha que pressentiu na sua crônica e experimente um pouco do ânimo com que combateu até o fim, até já sem unhas, Ana Leonor. Ela que agora pode estar em tudo e em qualquer parte, ela que frutifica, liberto o rosto de seu fotograma doloroso, ela, Ana Leonor, que pode viajar céus e mares na história de uma carta e, por sorte, chegar até o Brasil, até São Paulo, até o bairro da Aclimação, num recanto onde as ruas têm nomes de planetas e de onde se vê a estrela da manhã.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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