Águas de março [Madô Martins]

Posted on 24/03/2017

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Madô Martins*

O Instituto Médico Legal está alagado. Necropsias, só no município vizinho. A entrada da cidade, como há anos acontece, virou mar. Lojas, restaurantes, escolas e postos de saúde precisam fechar as portas, sem condição de funcionamento. Alguns estabelecimentos adotam comportas – altas barreiras, em geral, de metal, para impedir que as águas invadam seu interior e danifiquem tudo.

São as águas de março fechando o verão. Durante dias seguidos, a chuva não deu trégua, afetando os meios de transporte, o trânsito de qualquer veículo, inclusive bicicletas e o recém-inaugurado Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT. Muitos trabalhadores perderam a hora e alguns, até desistiram, diante das dificuldades para chegar ao destino.

O funcionário de um estacionamento conta que o vizinho perdeu tudo: a casa foi tomada duas vezes seguidas pela enxurrada e, sem forças para retirar tanta lama de dentro dos cômodos, o homem trancou a porta e partiu sem olhar para trás. “Eu mesmo perdi pouca coisa: uma cômoda e o guarda-roupa cujos pés sei que vão estufar. Fora isso, só a trabalheira de limpar o lamaçal”. O garçom diz que, ao vir de São Vicente para trabalhar em Santos, andou com água pela cintura, “mas estou vivo, graças a Deus”.

Em várias ruas, veem-se árvores caídas. Outras, que até então jamais sofreram alagamentos, tornaram-se intransitáveis, com bueiros entupidos e a água cobrindo as rodas dos carros. Cidade de mar agora cortada por rios temporários. Nem cheguei a ver a praia, mas imagino que a areia tenha sido carregada para cima dos canais e dos canteiros, arrasando mais uma vez a paisagem já combalida por frequentes temporais de verão.

A rua onde moro só ficou cheia a partir da quadra seguinte à minha, uma ameaça para a escola da esquina. No entanto, por ocupar o último andar de um prédio já idoso, convivo, há dias, com goteiras que pingam direto sobre a cama, fazendo-me lembrar de desenhos animados e antigos filmes em que os protagonistas distribuem vasilhas e bacias pela casa. O síndico contemporiza que os telhados não aguentam tanta chuva, que este é um mal comum entre velhos edifícios. Só que ele vive no primeiro piso, sem a laje sobre sua cabeça…

Antes das goteiras, descobri poças no mesmo quarto, resultado da água que conseguiu entrar pelo vão do ar condicionado e escorreu pela parede. Hoje, o cômodo é território de baldes e panos, mal me acomodo no leito encostado contra a parede e durmo precariamente, preocupada com novas surpresas. Às vezes, sonho com Atlântida…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas