As voltas do Volks [Daniel Cariello]

Posted on 23/03/2017

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Daniel Cariello*

Meu pai ligou o rádio e começou a cantarolar junto.

– Sabe de quem é essa música, Daniel ?
– Não.
– Dos Beatles.
– Quem?
– É uma banda de rock que já acabou.

Aquilo caiu sobre mim como um petardo. O “come on, come on”, de Please, Please Me, era tão marcante e a história tão impressionante – como assim, o grupo não existe mais? – que, nesse dia, o quarteto de Liverpool entrou na minha vida pra nunca mais sair. No meu aniversário de seis anos, poucos meses depois, pedi a todos o mesmo presente: LPs dos bítous.

O rádio do Volks quatro portas, vinho, 1969, não possuía FM, mas me trouxe os Beatles por AM e ainda sintonizava as ondas curtas que possibilitavam a meu pai e amigos captarem uma emissora que trazia notícias de revoluções distantes e abria as transmissões entoando a Internacional Socialista: “Aqui, Rádio Pequim”, anunciavam em português perfeito as duas vozes chinesas, logo após a canção. Na década de 70, escutar esses programas era um ato subversivo que dava cadeia facilmente.

Nos anos em que esteve na ativa, o pequeno carro foi palco de grandes proezas. Uma das mais notáveis foi acomodar treze pessoas que haviam ido a um pré-carnaval-furado e não tinham como voltar pra casa. A solução foi empilhar todo mundo no único automóvel disponível, em uma época quando Brasília era mais pessoas do que veículos, mais sonhos do que realidade. Meu pai e minha mãe nem namoravam, mas a história reza que ela foi no colo dele. Outros tiveram menos sorte e se encaixaram pelo chão e da maneira que dava. Alguns, da maneira que não dava.

Ainda testemunhou uma pseudoproeza, que gerou um pânico momentâneo.

– Para o carro, para o carro! Gritou um amigo da família que viajava para Fortaleza conosco.
– Que que foi?
– O Daniel está comendo biscoito pelo olho!

O susto foi grande, mas o alarme era falso. Nosso amigo não podia imaginar que na minha novíssima e super máscara plástica do Zorro era possível fazer um biscoito chegar à boca enfiando-o pelo buraco do olho. Depois do susto, a viagem continuou sem maiores sobressaltos, embalada pela conversa e um pouco de música, quando conseguíamos captar uma AM.

Contudo, a mais marcante de todas as histórias desse automóvel, mais velho do que eu, aconteceu quando meu pai foi buscar os três filhos na escola, em outubro de 1979, e fez um anúncio.

– Tem uma surpresa pra vocês lá em casa.
– É bolo? Perguntou o Pedro.
– É sorvete? Quis saber a Mariana.
– É bolo com sorvete? Indaguei.
– Nada disso, erraram todos. É uma irmãzinha. E vocês vão escolher o nome dela.

Fomos tomados por uma grande euforia, logo transformada em ensurdecedora gritaria. E ali mesmo começamos a especular como chamaríamos a mais nova integrante da família. Não demorou muito, passeávamos os seis, orgulhosos, pelas ruas da cidade. A Andréa ia no banco de trás, junto com a minha mãe. Por ser o primogênito, herdei temporariamente o da frente, onde circulava feliz ao lado do meu pai.

Em fevereiro do ano seguinte, o Volks quatro portas cedeu a vaga a uma moderna e espaçosa Belina II, que tinha rádio FM e acomodava confortavelmente toda a família e mais uma ou duas avós, além de um bando de amiguinhos no gigantesco porta-malas. Nosso agora velho carro foi estacionado nos fundos de casa e assim permaneceu por mais de uma década.

No início dos anos 90, ganhou uma sobrevida: cuidadosamente restaurado com pintura original e tudo, voltou a rodar pelas ruas da cidade, o tempo suficiente para meu pai testar a potência do motor renovado e receber diversas propostas de venda, todas prontamente recusadas, e para eu dar uma pequena batidinha de nada na lateral – quase nem dá pra ver, ó –, até este momento veementemente negada.

O Volks agora está parado na garagem da casa de minha avó, novamente abandonado. Toda vez que olho pra ele, penso como seria bom levá-lo de volta às ruas, rádio AM ligado, nós seis dentro, nem que seja para uma pequena volta na cidade. E no tempo.

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas