Lua [Elyandria Silva]

Posted on 21/03/2017

0



Elyandria Silva*

Procurava um assunto sobre o qual escrever a crônica da semana. Não é que não tenha assunto, ao contrário, tem assunto demais, só que a maioria não vale a pena falar, muito menos escrever.  Tudo anda chato, com os assuntos não é diferente. Hoje é domingo, dia de “lua de sangue”. Uma lua que será vencida por um céu emburrado, depois de tanta chuva. É fácil pensar em luas ficcionais, até clichenianas, de gelo, de ouro, de prata, nunca de sangue, nunca uma lua cheia vermelha. Porque pareceria que, a qualquer momento, gotas de sangue cairiam sobre a Terra e nossas cabeças. Banhos de sangue já temos por aqui. As apostas de que não seria possível ver a lua vermelha venciam à medida que as poças enchiam.

Adolescentes, contava meu pai, espantado com os novos tempos – com o som de fundo de outro temporal – agora se fotografam peladas, mandam as fotografias para os garotos, namoradinhos, que repassam para os amigos. Na escola todos zombam delas, ou das fotografias, ou das duas. Os pais, desesperados com o desespero das filhas, peladas no Whatsapp, prestam queixa na delegacia, mas o delegado diz que nada pode fazer se foi a filha que, por vontade própria, tirou a foto, e a enviou. Quando, comenta ele, que lá no passado alguém pensou que isso seria um problema para os pais. Quando adolescente uma das preocupações da minha mãe era encontrar tempo para nos comprar algo ou ensinar, dar dicas, de como limpar bem a casa. Tudo o que era “moda” não tínhamos porque a situação financeira não permitia, quanto mais um aparelho de telefone, algo muito distante de nossa realidade.

Ainda por telefone falamos sobre a chuva incessante, sobre o que cada um fez no domingo, ou pelo o que deveria fazer em domingos em que a água que cai do céu e não dá trégua. E sobre o que as pessoas comem em domingos chuvosos, no almoço, o que é muito diferente do que comem em domingos ensolarados. Domingos de sol combinam com churrasco, maionese, enquanto que domingos de chuva combinam com comidas rápidas, para depois “hibernar”.

A lua e a chuva não se completam, apenas exalam um cheiro de saudosismo. De noite as saudades atingiram seu êxito máximo depois que ouvi as músicas do A- Ha. Era um tempo com emoções líricas e constantes, fazia parte da vida. E de uma busca pelas coisas do mundo, pelas respostas para tudo, de um jeito inocente e cristalino. A lua era usada para a única possível razão de sua existência: fazer companhia a corações apaixonados. Os anos 80 foram lacrados com uma magia dourada que nenhuma outra década terá daqui para frente. Por isso que, quando estou sem assunto, é lá atrás que encontro o melhor de tudo que já existiu, onde nada era tão chato quanto hoje.

Enquanto ainda penso no que escrever procuro no céu a lua vermelha. Nenhum sinal. Apenas uma névoa suntuosa que não permite nada ultrapassá-la. Nova sessão de chuva recomeça e A-Ha canta Crying in the rain.

________

Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Anúncios
Posted in: Crônicas