Papai era Rolling Stone [Daniel Russell Ribas]

Posted on 20/03/2017

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Daniel Russell Ribas*

“Eu preciso te contar uma coisa.” Essa é a frase mais de minha vida.

Assim começa, plácido e turvo. Aos poucos, os contornos ganham cores. As linhas sob os olhos, a boca recortada em tons rosados. Eu a encaro. Em seguida, os adereços. Em cima do joelho, uma concha quente repousa. A porosidade dos dedos de meu pai me tira do transe. Por trás da maquiagem, uma expressão abatida.

Morei com minha mãe até o fim da adolescência. Como eu, a maioria de meus amigos foi criada por uma figura materna. Sempre que eles perguntavam por seus pais ausentes, a resposta sapateava entre “está em outro país” ou “está com a outra família”. Eu não. Quando fiz esta questão de crianças, recebi “Ele está na estrada.” Estrada? Viajando esse tempo todo? “Não, está fazendo shows pela Europa.” E deu as costas, fugindo de aprofundamento, como era seu hábito.

Após comentar com meus amigos de escola, concluímos que ele deveria ser músico. Passamos a especular qual seria sua banda. Em retrospecto, um papo muito mais interessante do que tentar adivinhar qual era a empresa para que seu pai advogava ou qual seria o relatório que o pai apresentaria aquele mês. Qual instrumento ele tocava, se era brasileiro ou estrangeiro… Foi uma semana intensa de debates nos intervalos entre as aulas. Minha mãe, com seu silêncio, só alimentava o mistério. Pouco falava e, quando o fazia nunca era algo positivo. Que ele a tinha enganado, que gostaria de nunca tê-lo conhecido, que não era homem de verdade… Magoado, gritava que ela invejava o fato de ele ter uma estrela e ela apenas uma pessoa puta e idiota. “Estrada”, “show” e “Europa” foram as únicas informações que tive sobre meu pai por anos.

Eu repetia: Meu pai é roqueiro.

No decorrer do meu aniversário de 8 anos, uma mensagem chegou a mim. Era meu pai. Queria me conhecer, escreveu que tentou entrar em contato, mas a rotina era muito exigente, etc. Voltava ao Brasil e queria me conhecer. Eu vi um homem grande, de sotaque exótico e ombros largos de quem abraçou o mundo há muito.

“Eu preciso te contar uma coisa.”, sussurrou após me largar.

Disse a ele que já sabia que tinha ido para uma turnê na Europa, que estava na estrada, por isso não pode entrar em contato. Meu pai é roqueiro! Ele riu, olhou para minha mãe e me encarou. “Sim”, confirmou. Perguntei qual era seu instrumento, ele respondeu que era vocal. Qual era sua banda? “Ah, meu filho, sou uma dessas pedras rolantes.” Um Rolling Stone aprendi inglês recentemente sabia? Posso ir com você talvez numa viagem…” Meu pai riu e me avisou que partiria logo, mas, algum dia, talvez, pudesse vir junto aos espetáculos. Também informou que estaria fora por um breve período, e retornaria. O que aconteceu dois anos depois.

Convivemos intensamente durante um ano. Não demorou para notar que ele era diferente dos outros pais. Suas roupas eram berrantes e largas, sua barba desgrenhada, as unhas longas como seu cabelo castanho despenteados. Aliás, ele era diferente do Mick Jagger. Depois descobriu que cantava covers.

No lugar de conversar sobre garotas, meu pai me falava sobre cultura e arte. Íamos a museus e a teatros, não a estádios ou praia. Jogávamos games e cartas, jamais futebol. Acho que ele sequer viu uma partida. Estranhava, mas fui me interessando à medida que o tempo passava.

Na adolescência, esta convivência semanal foi interrompida. Meu pai precisou se mudar para outra cidade, para cuidar dos pais idosos. Aposentara-se da vida artística. Já eu descobria o mundo por mim mesmo. Aquela função de guia que ele assumira havia sido relegada a outro plano. Era minha vez de descobrir os sabores e desgostos deste mundo cheio de brilhos. E assim eu o fiz, sem restrições. Meu respeito por ele seguia, combinado com uma sensação de conforto. Como “roqueiro” (entre aspas), estava mais aberto do que a maioria de nós.

“Eu preciso te contar uma coisa.”, e meu pai soube que sou gay.

Ele me abraçou de novo e disse que me amava. Ele então me pegou pela mão.

“Eu preciso te contar uma coisa.”, desta vez ele falou.

Fiquei intrigado, e me deixei conduzir por meu pai.

Fomos até seu quarto. Um cômodo pequeno, com uma cama de solteiro, um armário de madeira e um imenso gaveteiro. Ele abriu a de cima.

“Queria que tivesse me visto quando estava no auge. Mas eu e sua mãe achamos que você era muito pequeno ainda.”, confessou.

Meu pai me passou fotos e recortes de jornais. E lá estava. Selvagem, transformado, cheio de raiva e tesão, uma explosão de energia que sempre suspeitei através de seus olhos. E lá estavam, lembranças da Damas de Ferro, uma banda punk-rock dos anos 80, uma das primeiras bandas assumidamente de homossexuais. Com um figuro inspirado em Kiss e glam, seus atos eram de confronto a sociedade e de uma sexualidade desenfreada. Sexo oral, masturbação no palco, entre outros, eram rotina em uma apresentação na Damas de Ferro, a banda em que meu pai foi A Vocalista, Miggy Fisty!

“Cantávamos covers, porque não tínhamos letras, nem nos importávamos. Era atitude, meu filho!”, suspirou, com um orgulho que ressurgia.

Muitos anos se passaram até a última vez em que ouvi “Eu preciso te contar uma coisa”. Meu pai morria de complicações devido a uma pneumonia. Em sua cama, no hospital, revelei que o documentário sobre a Damas de Ferro, que escrevi e dirigi, estrearia logo. Ele sorriu e suspirou os últimos versos de “Play with fire”.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas