Sobreviventes do verão [Guilherme Tauil]

Posted on 14/03/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Houve um tempo em que me incomodava com o fato de os bebedouros estarem sempre ao lado dos banheiros públicos. Tinha certeza de que, em algum ponto, as águas se cruzavam no encanamento. Não sabia nada de hidráulica, continuo não sabendo, mas hoje sei um pouco mais sobre a vida e aprendi que, em matéria de bebedouro, há mais coisa acontecendo na superfície para nos preocupar.

Não seria razoável pensar que, em pleno verão tropical, o bebedouro não fosse disputado por outras espécies que não nós. Eu estava sentado debaixo da árvore quando vi um pombo rasgar o ar, tal qual predador de rapina em rasante, e graciosamente pousar – você adivinhou – no bebedouro.

Com aquela cara de desentendido muito típica dos pombos, parecia não saber que estava fazendo algo errado. Girou o corpinho para lá, depois para cá, o bico apontando sempre em outra direção, e quando parecia que ia alçar voo, achou uma posição confortável e aconchegou-se na pequena poça de água superficial – para ele, mais um Piscinão de Ramos.

A minha consciência de cidadão que só atravessa na faixa apitou: um pombo a se refrescar onde eu poderia botar a boca não está certo. Pensei em me levantar e espantá-lo, mas fazia sol, estava longe e ainda era capaz de o pombo me dar um esporro, indignado que alguém pudesse querer expulsá-lo de sua banheira naquele calorão. Depois de discutir, ainda me faria sentir culpado, arrematando que também era filho de deus e merecia descanso. Até porque, diria, eu nem imaginava como tinha sido seu dia.

Derrotado, não teria outra opção além de conceder à ave seu momento de sossego oportuno, já que não há criatura mais injustiçada nas cidades que o pombo. Sempre nutri por eles certa antipatia, movida, talvez, por um instinto de higiene. Mas depois deste momento muito humano, uma rápida pausa em seu dia de restos e sobras, percebi que pombos são mais que ratos de asas a imundar nossos bebedouros.

Com esse olhar de quem não entende bem o sentido da vida, não são muito diferentes de nós. O caminhar desengonçado de quem vai para um lado mas adoraria ir para outro, a condição eterna de sentir-se só no próprio bando. Para conquistar a parceira, também finge ser o que não é, inflando o peito vazio. O pombo é, sobretudo, um sobrevivente. Sempre toma seu rumo, sem forçar nada. Aceita viver no espaço que lhe é dado e na sua cabecinha elétrica não há nenhuma ambição. Pensando bem, se eu tivesse que ser uma ave, seria um pombo, ainda que a imagem do persistente joão-de-barro me pareça tentadora.

Eu, que peno para me manter firme a cada verão, jamais acabaria com o repouso de um igual. Deixei, então, que a seleção natural agisse, cada um na sua. Não demorou para que o pombo se sacudisse e retornasse à sua rotina miserável de pombo, que, apesar de tantos pesares, não precisa se preocupar com a higiene dos bebedouros.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas