“Judite e Holofernes”, um vaso Yortan e 65 desenhos inéditos de Van Gogh [Mariana Ianelli]

Posted on 11/03/2017

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Mariana Ianelli*

I

Um Caravaggio estimado em 120 milhões de euros foi descoberto numa casa no sudoeste da França, perto de Toulouse, em 2014. Segundo especialistas, a obra seria uma segunda versão da cena bíblica da decapitação de Holofernes pintada pelo mestre entre 1604 e 1605. A primeira versão, a mundialmente famosa, de 1599, faz parte do acervo do Palazzo Barberini, em Roma. Esta nova, que enluta Judite antes vestida de branco, que acrescenta raiva ao rosto de Holofernes onde antes havia só espanto, estaria há pelos menos 150 anos oculta num sótão, considerada cruel demais, como diz o jornalista Eric Bietry-Rivière, para ficar exposta numa parede da casa. Uma cena secreta de degola contra um jorro de sombras de cortinas encarnadas. Judite na noite de um acampamento, cortando a cabeça do general do exército assírio, com sua velha serva de cúmplice na retaguarda. Judite e seu fervor-com-ímpeto no reservado de uma tenda, aos pés da cidade de Betúlia, vencendo entre cortinas uma guerra contra 140 mil homens. Uma cena selvagem demais para figurar num ambiente doméstico. Consta, porém, que, antes de enfurnada como peso de uma herança, a obra teria pertencido a um oficial do exército de Napoleão, para quem a pintura devia ter o efeito de uma página da arte da guerra a ser estudada. Um quadro que um oficial de guerra muito provavelmente mantinha à vista, suspenso e emoldurado, para lembrar que exorbitâncias podem acontecer também durante o sono da guarda. Para lembrar todos os dias o que pode uma mulher quando se trata de vencer um exército só com astúcia, palavra e dois golpes de espada.

II

Quando Thelma Bishop foi à casa de leilões de Adam Patridge, quem sabe ela, ou algo nela, já desconfiasse. Quem sabe não tenha sido completamente uma surpresa quando o avaliador de obras da casa revelou-lhe que aquele seu jarro comprado durante uma viagem, na década de 1960, numa feirinha em Éfeso, era uma verdadeira relíquia arqueológica. Um jarro do começo da Idade do Bronze, pertencente à cultura do povo Yortan. Thelma seguiu o conselho do avaliador e de espontânea vontade devolveu seu tesouro de afeto à Turquia. Agora a peça ficará exposta no Museu das Civilizações da Anatólia, em Ankara, com uma etiqueta atestando seus 4.500 anos, sem que se saiba que 50 deles foram passados ao lado de Thelma, entre outros objetos de Thelma e seu marido Malcolm. Um jarro do antigo povo Yortan, cuja arqueologia pessoal entesoura um tempo de exílio do seu papel na grande História. Um jarro da Idade do Bronze, cuja vida íntima absorveu as idades de uma casa na Inglaterra em alguns milhares de dias e noites de clandestinidade.

III

“Dr. Rey deixou para o Sr. e Sra. Ginoux, da parte do pintor Van goghe (sic), caixas de azeitona vazias, uma porção de panos de prato xadrezes assim como um grande caderno de desenhos, e se desculpa pelo atraso”. Foi o que anotou um empregado Café de la Gare num livro de registro, na manhã de 20 de maio de 1890, em Arles. Mais de 120 anos depois, reaparecem exumados do esquecimento esse pequeno livro, não inteiramente intacto, e o referido caderno, esse sim intacto, com 65 desenhos inéditos de Van Gogh. De formato nada convencional para um caderno de desenhos, o achado é na realidade um velho livro de contabilidade sem pauta provavelmente oferecido ao pintor pela Sra. Ginoux, que teria sido recompensada, sem se dar conta disso, com a devolução do caderno repleto de estudos de paisagens e retratos. A publicação desse material numa edição de luxo, pela Seuil, no final de 2016, pretende ser, nas palavras de Ronald Pickvance que prefacia o volume, “a descoberta mais revolucionária de toda a história da obra de Van Gogh”. Até então não se tinha notícia de nenhum caderno de croquis sobrevivente do período provençal de Van Gogh. Até então não se sabia de desenhos do artista feitos com tinta sépia. Nem se imaginava que o artista tivesse produzido tanto durante os meses que abrangeram sua crise, entre final de 1888 e o começo do ano seguinte. Foram essas razões, entre outras mais, de um multiplicado ineditismo, que levaram o Museu Van Gogh de Amsterdã a negar a autenticidade dos desenhos. O revolucionário da descoberta, diante disso, recua um passo e se emaranha numa rixa internacional de especialistas. Enquanto se debatem suposições, indícios e justificativas, alguém pode folhear o raro caderno desgarrado, senão de Van Gogh, de um seu duplo na linguagem do estudo de jardins ondeados pelo vento, ciprestes e álamos feito flamas, sóis reverberantes. Lá está a ponte elevadiça de Arles, um barco de traços ritmados pelas vagas de Saintes-Maries-de-la-Mer, o mistral de junho nos campos lavrados de la Crau. Lá estão os girassóis de Saint-Rémy, as pequenas montanhas de feno e os trigais ao pôr-do-sol da Provence, galhos de uma amendoeira em flor, e a mais bonita e metapoética história entre as inventariadas pela especialista Bogomila Welsh-Ovcharov: os juncos do norte de Arles, que Van Gogh teria desenhado entre setembro e outubro de 1888, juncos da mesma cepa daquele que o artista ele próprio talhou na confecção do cálamo, seu instrumento de desenho em todo o caderno de Arles. Se é que se trata de um punhado de cópias mal interpretadas, como alega o Museu Van Gogh, quem as fez foi mais além e ousou criar esboços de motivo sem paralelo na obra do artista, como o dos juncos, ou expressões nunca vistas em rostos já bem conhecidos, como nos novos retratos de Marie Ginoux e Gauguin. Os inéditos sendo verdadeiros, e verdadeiramente surpreendentes, de um caderno de uso pessoal, então o desprezo do Museu Van Gogh por esses desenhos é fiel ao desprezo que o artista amargou em vida. O lado real da fábula de um livro de contabilidade convertido em livro de valor inestimável.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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