Somos todas Doroteia [Madô Martins]

Posted on 10/03/2017

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Madô Martins*

E porque estamos na Semana da Mulher, choveram mensagens e cumprimentos de todo tipo para esta representante do gênero. Na quarta, houve até cortejo pelo centro da cidade, festejando nosso dia, que é todo dia, como sabemos, assim como o dos homens, já que a vida se manifesta em todos nós, com suas dores e delícias diárias.

Revivendo o Carnaval, um cordão de mulheres santistas desfilou com fantasias, sob o lema “Somos todas Doroteia”, numa citação à antiga patuscada em que homens se vestiam de mulher, em geral com roupas feitas de papel crepom, e terminavam com banho de mar a festa chamada “Dona Doroteia, vamos furar aquela onda?”

Outras citações vieram pela internet, entre elas, uma que me fez pensar nas sempre decantadas diferenças entre homem e mulher: “temos certeza de que os filhos são nossos”.

Chocante, mas verdadeira. Sem falar nas piadas, algumas de mau gosto, outras extremadas, e na inútil discussão sobre quem é melhor, tão desgastada quanto prever que os jornais vão acabar um dia, por causa da mídia virtual.

Aconchegante é a cumplicidade tácita que se estabelece entre nós, no 8 de março. Antes mesmo do bom dia, a faxineira me disse: “parabéns pelo nosso dia!”, e pude constatar que somos todas Doroteia, mulheres apaixonadas pela vida, pelo amor, de fé inabalável por dias melhores, à eterna espera de um carinho, tenhamos a posição social e instrução que tivermos.

Em pleno século 21, nossa cor de identidade ainda é rosa, ainda adoramos ganhar flores, homens que abrem portas e puxam cadeiras, elogios, delicadeza no trato, surpresas agradáveis. Queremos todas nos sentir especiais, em qualquer página do calendário.

Para o desfile de quarta passada, ousei confeccionar um vestido de tnt, estreando o papel de costureira, até então, desconhecido. Foi engraçado sentir-me um pouco como os carnavalescos, aplicando babados com grampeador no traje sem bainhas, feito para durar apenas o tempo da brincadeira. Fui, também, Cinderela preparando-se para o baile. Aquela foliona com laço de fita nos cabelos só existiria naquelas duas horas de encantamento, para então retornar ao papel costumeiro.

No inusitado cordão, mães, avós, tias, filhas, irmãs, netas, meninas de ontem e de hoje, afirmando com passos cadenciados sobre os velhos paralelepípedos do centro que existimos e nossa meta, desde sempre, é sermos felizes!

Um beijo para todas. E todos.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas