Ainda o Carnaval [Carlos Castelo]

Posted on 08/03/2017

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Carlos Castelo*

Como o Carnaval não acaba mesmo no Brasil, senta que lá vem uma outra história sobre as saturnais. Foi num sábado de carná em São Roque. Saímos dessa cidade onde meu pai tinha um sítio e dirigimo-nos até a vizinha Mairinque. Zé Renato, um saudoso e querido primo, eu e mais duas garotas recém-xavecadas.

A razão de irmos a Mairinque, não me lembro mais, já lá se vão muitos outonos. Deveríamos ter ficado ali mesmo no São Roque Clube. Fomos em meu Fuscão preto. A garota dele era alta e fornida. A minha magrinha e gaga.

Paramos em frente ao clube e já saltamos direto para o salão. Quando eu entrava com a magrinha, ela me mirou, as butucas dos olhos quase a espocar, e começou a falar em soquinhos:

” O Don, o Don, o Don, o Doni!”

Repetia a frase cada vez mais alto. Achei que fosse um refrão afrobaiano qualquer e aproveitei pra lhe dar um soprão no ouvido. Só que, de repente, meu chapéu panamá foi arrancado brutalmente e levei um cascudão que me botou tonto. A gaga finalmente desembuchou a frase:

” O Don-Donizete é meu na-namorado!”

Quando vi o Doni me deu até um esmorecimento. O sujeito era um Serginho Chulapa branco, sólido como um bólido. Calculei o risco em segundos. Se ficasse parado ali apanharia mais que um terrorista em Guantánamo. Resolvi então fazer o inusitado. Num arranque inesperado, meti com tudo os pés na barriga tanquinho do bombado. Peguei meu panamá de volta e, enquanto ele se recompunha, sai me esgueirando com o Zé Renato por debaixo das mesas de plástico do clube.

Quando conseguimos chegar à entrada principal da agremiação, notamos a turma do Doni Chulapa vindo em nossa direção. Detalhe: com pedaços de pau e pedras na mão. Lembrava um daqueles momentos pré-linchamento de minorias pelo Klu-Klux-Klan nos Estados Unidos profundo.

Corremos pro estacionamento seguidos pela horda de vingadores e, antes de entrarmos no Fuscão preto, nos entregamos ao PM de plantão no local.

– Senhor, eu, Carlos Castelo, RG tal, estou me colocando à disposição das autoridades policiais de Mairinque por razões alheias à minha vontade…

Sonado em função do turno da madrugada, o meganha nos olhou naquela roubada e falou:

“Acompanho o carro dos senhores na minha viatura até a divisa com São Roque, de lá “ocêis resórve o causo”.

O veículo de Donizete e seus sanguinários comparsas – uma Kombi – nos seguiu até a entrada da cidade. Depois sumiu num trevo e saiu pra sempre de nossas vidas.

Nunca mais vi a gaguinha.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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