A marca na pele [Daniel Russell Ribas]

Posted on 06/03/2017

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Daniel Russell Ribas*

Penso em tatuagens. Ou talvez esteja dominado pela pesquisa. Explico: entre os trabalhinhos que faço, um desses é buscar material bibliográfico para clientes. Nos últimos meses, estou envolvido em um projeto sobre a história da tatuagem no Brasil. Um assunto sobre que desconhecia tanto quanto o que move o coração humano até ano passado. Ainda não tenho a menor ideia de o porquê as pessoas fazerem o que fazem, mas aprendi muito sobre a prática e a arte de tatuar. Fui fisgado.

Em conversas com amigos, enumero entusiasmado as novas imagens que adornariam minha pele (tenho três no momento): uma tribal do antebraço até o peito esquerdo (em que estaria uma rosa), uma âncora (sou velha guarda), um polvo de pontilhismo, uma caveira com uma cobra naja envolvida que ficará na barriga, um poema, uma zumbi grávida no estilo new school (há um motivo para isso, acreditem!), … Há mais que gostaria de fazer, mas prefiro fechar o corpo apenas contra influências ruins.

O sentido da tatuagem me fascina: desde as tribos Maori até o body art, trata-se do corpo correspondendo ao mundo que nos cerca. Há diversas razões (e métodos) para gravar uma imagem no corpo, mas a essência é a manifestação individual quanto ao que nos move. Nossas marcas, assim como as palavras, são a prova de que estivemos na história. É a manifestação física de uma experiência que nunca nos abandonará. Minha amiga Patrícia tem um Edward Mãos de Tesoura no braço. O brilho nos olhos dela quando relata por que fez a tatuagem denuncia a força que este filme exerce nela.

A tatuagem é uma arma que pode atingir ou explodir na sua mão. Quem fez tatuagem com nome de ex-amante sabe (Moacyr Scliar tem uma crônica maravilhosa sobre isso). A remoção nunca é completa. A única maneira de apagar o registro de maneira eficaz é com uma nova pintura por cima. A metáfora mais uma vez se apresenta: para superar um acontecimento, é preciso construir um novo. Com exceção da vida, nada é eterno. Caso contrário, corre-se o risco de se acomodar. E o universo sempre prega peças nos resignados.

Em dois anos, minha vida mudou. Tudo o que era certo, que estava à mão… Dentre as graves mudanças, está a função de provedor. É quentinho e confortável dormir sob a asa do dragão. Você se acostuma. Então, surge uma reviravolta. E você percebe que realmente não sabia de nada, inocente. Lidar sozinho com dois idosos que necessitam de cuidados, e não reconhecem sua condição, é mais do que um desafio. É uma prova de fogo. Uma queimadura que marcará para sempre. Daqui, não há retorno ou remoção.

Reconheço a sorte de ter amizades que me apoiam como podem, reconheço enfrentar uma força poderosa, reconheço a riqueza desta fase, reconheço que um fascinante processo de transformação tomou conta de nós. Ouço o som da máquina que se move sobre nós. Eu vejo o quanto mudei. Maduro e cansado. Frio e desesperado. Grato e reservado. Paradoxos à flor da pele.

A tatuagem é um paradoxo, pois é um agente externo que age para revelar o que sempre pode ser visto. Isto não necessariamente implica em ser aquilo que o tatuado gostaria que fosse exposto. Muito se arrependem depois. Mas o fato é que isto sempre esteve dentro de nós. Podemos ser outras pessoas agora, mas jamais dar as costas ao passado. Ele vive, em parte, em nós. Em pais e filhos, por exemplo. Para apagar o registro, é preciso construir um novo. Chama-se adaptação. Ou, como é mais conhecida, “vida”. É um processo doloroso, mas, ao fim, estampar uma beleza particular.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas