O pecado original [Rubem Penz]

Posted on 03/03/2017

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Rubem Penz*

Fiat lux, Adão, costela, Eva, paraíso etc. e tal. Todo mundo conhece o percurso do Homem, ou o tanto de água que passou debaixo da parreira até dar no que deu. Mas sempre há nuances a serem exploradas por quem se dedica a investigar o insuspeitado. E não custa nada remontar a cena que alterou o rumo das coisas para, com isso, tirar lições. Do princípio:

Antes de tudo, era o caos. Num determinado momento o Criador, em sua elevada benevolência, ao som de um coral de anjos e iluminado pelo mais cálido raio de luz, resolveu pôr ordem no galinheiro. E fez-se a luz; também surgiu a Natureza com seus vales e montanhas; oceanos, lagos, nuvens e areia brancas. Tudo pronto para o eleito: o Homem.

Logo após o sopro de vida na argila inerte, nasceu Adão, aquele que era feliz e não sabia. Vivia no que mais tarde seria convencionado chamar de CNTP (Condições Normais de Temperatura e Pressão): amanhecia numa temperatura amena, esquentava um pouco no bom sol, chovia confortavelmente e, à noite, era sempre recomendável puxar uma folha de bananeira para se cobrir. Sem umidade ou rinite, sem ácaros, sem roupa que nunca seca no varal ou um gole da maldita para enfrentar o vento Minuano. Por outro lado, não acontecia nada.

Tudo estava tão bom que nem parecia possível ficar melhor. Eis que da costela de Adão nasceu Eva. Ah, a mulher! Evolução da espécie, arte final para seu rascunho, companheira criada por Deus para estar sempre ao lado do homem, mas que, por excelência de projeto, estaria sempre à sua frente. Beleza de uma felina, movimentos de uma felina, charme de uma felina, unhas de uma felina, humor de uma felina… e memória de elefante. Adão já não mais precisava se preocupar em fazer agrados ao Criador – bastava atender Eva e seu dia estaria tomado, suas noites garantidas, o mundo em completo sentido. Deus poderia tirar suas férias em paz, afinal.

No mundo, os riachos eram límpidos, as cachoeiras luminosas e ondas quebravam em praias caribenhas. Dos peixes vinham as carnes com baixo colesterol e muito ômega três, das frutas a doçura e as vitaminas, das florestas a fotossíntese, dos pássaros os ovos e o canto, muita salada para garantir o intestino bem regulado de Eva. Havia o cão para brincar, o cavalo para montar, o ornitorrinco para refletir sobre o imenso poder da inventividade. Em constante aprimoramento, o Homem passou a ser, ele também, um criador. E da nudez nasceram as vestes, da voz a música, dos alimentos a culinária, da palavra a poesia, da química os conservantes, da física as explicações, do amor a dor de cabeça. Mas existia a maçã.

Pois, Adão e Eva, insatisfeitos com aquilo que parecia perfeito, entediados com tanta harmonia e fartos de beleza, ambicionaram o fruto proibido. E logo ali, adiante da cerca, estava a macieira do vizinho. Nela, auspiciosa, a suculenta maçã. A mulher disse vá até lá e apanhe uma para mim. O homem ponderou que poderia dar galho. Ela fez beicinho, mas ele parecia irredutível. Então, cochichando ao ouvido, Eva prometeu alguma coisa que Deus não deveria ouvir. E Adão saltou por sobre a cerca feito cão que ouviu a sineta de Pavlov. Só que o vizinho viu. E sua mulher, uma verdadeira cobra, fez queixa para o síndico do Condomínio Horizontal Paradiso. E o assunto rendeu tanto que foi parar naquela que se tornaria a interminável assembleia de moradores na qual, até hoje, pagamos todos pelo pecado original.

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* Rubem Penz, nascido em Porto Alegre, é escritor e músico. Cronista desde 2003, atualmente está nas páginas do jornal Metro. Entre suas publicações estão “O Y da questão” (Literalis), “Enquanto Tempo” (BesouroBox) e “Greve de Sexo” (Buqui). Sua oficina literária, a Santa Sede – crônicas de botequim, dez antologias, foi agraciada com o Prêmio Açorianos de Literatura 2016 na categoria Destaque Literário. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas