Vai passar [Daniel Cariello]

Posted on 02/03/2017

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Carnaval esse ano?, não tô no clima, ainda mais com esse baixo astral em alta no país, vou passar rapidinho em um ou dois blocos, porque não tem como fugir e não quero parecer ranzinza, chego, tomo uma cerveja, canto oh, jardineira, por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu?, tomo mais uma cerveja e o rumo de casa, vai ser assim, se vai.

Chegou convite pra concentração pré-carnaval na casa de amigos, prédio ao lado do meu, primeiro andar, o bloco se reúne embaixo da janela deles, depois do almoço, perfeito, dá pra ficar de camarote, cumpro a meta e nem preciso descer, pra você ver como me esforço, até coloquei uma camiseta bem colorida dos Beatles, tá mais do que bom.

Já dá pra ouvir a música na rua, vou levar duas garrafas grandes de cerveja, não, vou levar três, não quero beber muito, mas o pessoal pode animar e ninguém gosta quando falta bebida na festa, bom, vou levar logo quatro, na pior das hipóteses, se sobrar, fica pros donos da casa, ou então a gente bebe junto outro dia, quando o carnaval tiver passado.

E aí, tudo bem, cheguei tarde?, aqui, cinco cervejas, põe no congelador, se eu quero purpurina e máscara?, vai, purpurina, mas máscara não rola, tá bom, vou guardar no bolso pra uma ocasião, se ela chegar, mas não acredito muito nisso, ei, e aquela cachacinha em cima da mesa, posso provar?, é da boa, desce esquentando, agora preciso de uma gelada, pra esfriar a garganta.

O bloco também esquentou, dá pra ouvir como se estivesse dentro do apartamento, vou dar uma espiada da janela, quanta gente!, todo mundo fantasiado, olha aquele homem aranha, coberto da cabeça aos pés, deve estar derretendo, mais esperto e menos criativo é o nadador, só de sunga, touca e óculos, sete, oito, nove mulheres maravilha, dez, não, onze, sei lá quantas, esses músicos são bons, hein?, ó ali o Zé Luís e o Pedro com sua eterna clarineta, ei, Zé, não ouve, claro, mas me viu, se eu vou descer?, acho que não, aqui tá bom, a enfermeira acha que eu faço mímica pra ela e vira a esquina dando tchauzinho.

A campainha toca, a porta se abre e entram dez pessoas, de onde elas saíram, quem são, e o que é esse Cordão das Mulheres Rycas?, e esse cara vestido de segurança, que figura, a sineta soa de novo, outra dezena de rycas adentra, o segurança controla a passagem do grupo, mais cinco minutos e a terceira onda chega, dessa vez já é o segurança que abre a porta e diz pra irem se acomodando, o banheiro é à esquerda e a cozinha fica no fim do corredor.

Uma filial do bloco se apropria do apartamento, tiro a máscara do bolso e a visto, segurando o copo de cerveja entre os dentes, tenho a impressão de que ninguém conhece mais ninguém, viro outra cachaça, e em meio a aperto, suor, lantejoula, fumaça, serpentina e quem é você, adivinha se gosta de mim?, o carnaval chega e arrebata a todos como uma força da natureza, arrastando de forma impiedosa rycas, anônimos, piratas, bailarinas, bêbados, crianças, palhaços, roqueiros, toda a gente para a rua, porque a vida é curta e o carnaval mais ainda.

*Texto originalmente publicado no site Quadrado Brasilia.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas