Humanos, esses animais [Guilherme Tauil]

Posted on 28/02/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Não entendia aquele cachorro se esfregando na grama enquanto eu resolvia questões de física. Entretido apenas com o mato, rodava, mordia o ar, caçava algo que não existia. Achei uma vida muito besta a do cão, essa de enfiar o focinho na lama, rodopiar sem motivo, rosnar à toa. Quando voltei a calcular o local em que o trem partindo do ponto X a oitenta quilômetros por hora colidiria com o outro que se movia duas vezes mais rápido, fui acometido por uma desagradável surpresa: pior sou eu, preocupado em decorar fórmulas para solucionar problemas que não me dizem respeito. Deixei que os trens se chocassem onde bem entendessem e fui brincar com o bicho, muito mais sábio que seu dono apesar da baba. A partir de então, abandonei o topo da pirâmide alimentar para olhar os animais de uma maneira diferente:

Cientistas de Washington descobriram que corvos têm um cérebro invejável e são capazes de memorizar feições humanas. Significa que se você ameaçar um deles, vai ficar com a cara marcada no bando como elemento indesejável – e que, é claro, estão sempre julgando seu penteado e sua maquiagem malfeita.

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Ainda sobre aves americanas, um parente do gaio-azul é capaz de planejar o amanhã, estocando alimentos conforme a necessidade que terá. Mais ou menos como nós investimos na poupança. O conceito de futuro é tão complexo que não havia sido registrado em outras aves. O mesmo pássaro, quando um dos seus morre, faz um tipo de funeral sonoro para dar a notícia aos outros. Cientes do amanhã e da morte, basta esperar que nenhum destes passarinhos faça a conexão entre os conceitos, pelo bem da saúde mental da espécie.

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Um porco, quando se depara com o espelho pela primeira vez, fica cerca de meia hora tentando interagir com a própria imagem, até se dar conta de que ele não é tudo aquilo que pensava, e desiste. Alguns humanos levam a vida inteira para chegar à mesma conclusão.

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Terá havido entre os coalas um passado de pavoroso genocídio? Brigam os camelos há muitas gerações pelo direito a um pedaço do deserto? Por acaso os castores se empenharam na construção de uma grande represa para segregar seus iguais? Os gatos desprezam-se uns aos outros pelos sotaques dos miados? Ou será que só os humanos são uns animais?

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Enquanto nós faríamos de tudo para apagar algumas memórias, as planárias, simpáticos vermezinhos vesgos capazes de se regenerar, não têm opção: mesmo quando decapitadas, as lembranças antigas voltam com a nova “cabeça” que se forma. A punição divina imposta para este tipo de imortalidade é conviver, para sempre, com os fantasmas do passado. Felizmente, os registros indicam que as planárias não são dadas a relacionamentos afetivos, nem costumam se arrepender de suas escolhas, que no geral se limitam a questões de sobrevivência, nunca de amor.

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Quando os incas viram chegar os espanhóis a galope para arrasar suas terras, pensaram que se tratava de alguma divindade de quatro patas e duas cabeças, pois nunca tinham visto equinos. Os cavalos, porém, não deram a mínima e não pensaram em nada.

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Já os elefantes que enfrentaram o exército de Alexandre, o Grande em Gaugamela, acharam um pouco de graça em ver o tamanico daquele homenzinho vestido de metal.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas