Vê se esquece [Cássio Zanatta]

Posted on 27/02/2017

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Cássio Zanatta*

Você tenta esquecer: tranca a gaveta das fotos, lê cinco livros em vinte dias (evita os de poesia por precaução), se enreda em outras tramas de outras gentes, mas em uma delas há um personagem que vagamente o faz lembrar.

Faz o possível: visita museus, vai a um concerto por dia e conhece cinco mundos diferentes, enlouquece em alguns deles, sai desorientado de outros, mas são só as coisas o lembrando de como são.

Come toda a goiabada da despensa, mata com ela os dois potes de requeijão, o que o obriga a fazer um regime brabo de duas semanas à base de água, ovo e agrião, sem carboidratos ou açúcar, e isso em nada contribui para que você esqueça.

Na oitava dose, pensa ter esquecido de vez, até se arrisca emergir. Mas repara que o gelo parece um iceberg num mar de gim – você está a bordo do Titanic, e não há boias para todos. Há um Santíssimo em cima da porta do bar, isso não deveria acontecer a um bar, mas ele brilha sobre a porta e repare: a pomba de asas abertas parece rir. Enfim, as doses só o ajudaram a ficar bêbado, inerte, lamentoso e desenterrar a letra do samba antigo. Falando nisso, amigo, música é o diabo.

Quando vê, se esqueceu de algumas regrinhas de gramática, ficou tão abalado que insiste em não lembrar as correções. Quer esquecer tudo, e isso inclui as regras.

É preciso reconhecer que, por alguns dias, você conseguiu, esteve envolvido em outros encantos. Entrou no mar e boiou por três minutos, aprendeu que água gelada é ótima para esquecimentos. Estava mais falante que o taxista e se pegou reparando nas surpresas das janelas da rua. Mas, daí, alguém tocou no assunto, diz que foi melhor assim, que é a vida, e você desaba, porque não foi melhor assim nem é vida coisa alguma.

Em cinco anos, será espantoso como você esqueceu tudo ­– e parecia impossível. Mas até lá, paciência, astronauta, será preciso estudar química em alemão, aprender a tocar cello, viajar duas vezes a Marrakesh e semana sim, semana não, ir ao Planetário, para constatar que, vista de Marte, a Terra é uma estrelinha ridícula, quase imperceptível, e que todas as encrencas que vivem nela são insignificantes, incluindo a lembrança que insiste em estar.

É preciso mais algumas rodadas de esquecimento. Dizem que em Goiás há uma planta ideal para isso, que é preciso ferver suas folhas em óleo até queimar o céu da boca – mas tenha cuidado: no tronco há sempre uma cobra enrolada, tentando se esquecer do ódio que dedicam a ela.

Nuvens ajudam. Amigo contando uma história inverossímil, de preferência comendo pastel de vento. Pedalar por estrada de terra, levando uns tombos e se ralando nas pedrinhas. Mas o que funciona mesmo, mesmo, é crer com fé, mas andamos todos meio esquecidos de como se faz.

Lembre-se de pagar o condomínio, fechar o gás, quitar a dívida na banca, o aniversário da tia Cecília. O resto apague com todas as forças, que esquecer é uma bênção.

O problema é que o esquecer demora, demais da conta.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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