Amor e outras incongruências [Raul Drewnick]

Posted on 26/02/2017

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Raul Drewnick*

O amor tem tronco, membros e um coração completamente disparatado bem no lugar onde deveria estar a cabeça.

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Quando eu for falar de amor novamente, que eu consiga ser conciso, como uma passarinha muito doente que, aflita para chamar o filhote perdido,  não tenha forças para nada além de três piados.

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O sofrimento de certas almas, quando devastadas pelo amor, não há palavras que possam exprimi-lo. Talvez só o som agudo, agudíssimo de um violino chorando por uma infanta defunta.

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Em materiais de construção o poeta concretista tem vinte por cento de dedução se pagar a vista.

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Quem lida com a poesia pode ter mãos de pedra, mas seu coração deve ser de jardineiro.

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Alguns dizem ter um compromisso com a poesia. Geralmente não são os poetas. Estes, como se sabe, estão sempre nas nuvens, poetando.

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Talvez você pense já ter exprimido tudo que é possível dizer sobre o amor. Não importa. Se algo mais lhe ocorrer, não hesite. Dizem que o amor é importante.

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A literatura, em mim, foi uma ideia fixa que se transformou em obsessão antes de tornar um projeto malogrado.

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Aposentando-se, o poeta pôs à venda alguns dos itens de que não precisaria mais: o sol, a lua, as estrelas. Para esses não surgiram interessados, talvez por dificuldades de transporte. O cisne foi negociado logo no primeiro dia.

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Era bonito quando o minuano parava de rugir, se assumia como pássaro e ia comer alpiste na mão de Mario Quintana.

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Tantos lugares onde o amor poderia agonizar… Precisava ser na minha alma, e tão dolorosamente?

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No sofá adquirido na loja de móveis usados, um tesouro pelo qual não se pagou nada: o desenho deixado no veludo pelas garras de um gato.

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Se o amor não fizer sofrer, há de ser despedido por justa causa. Agradinhos, beijoquinhas e lambidelas qualquer um encontra em qualquer esquina.

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Em nossos lábios, a palavra amor murcha sem esperança.

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O desejo de expressar a beleza há de ser constante e intenso em nós. Se for obsessivo, melhor ainda.

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Eu poderia ser considerado normal, se não fosse esta mania que tenho de ser Shakespeare.

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Depois que se vai a ilusão da obra-prima, vai-se todo o resto. Trabalha-se, trabalha-se, mas nada além disso. Trabalha-se. É triste trabalhar assim.

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Adão e Eva furtaram todo o dinheiro de Deus e foram morar num paraíso fiscal.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas