Meia noite em Jaraguá [Elyandria Silva]

Posted on 21/02/2017

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Elyandria Silva*

Meia noite em Paris. Esse é o nome do filme que assisti ontem. Roteirista de filmes, noivo de uma patricinha fútil e arrogante, o personagem principal se encanta por Paris numa viagem e, enquanto se dedica a escrever um romance ao mesmo tempo em que sua noiva só pensa em comprar e fazer atividades banais, ele vive uma experiência inusitada quando, de noite, se perde pelas ruas da cidade e é abordado por um carro antigo com pessoas estranhas dentro que o convidam para ir a uma festa. Relutante, depois de um tempo, aceita o convite e volta no tempo, década de 20, onde se encontra com Scott e Zelda Fitzgerald, Ernest Hemingway, T.S. Elliot, Pablo Picasso e outros grandes artistas. Desejando repetir a experiência ele descobre que basta estar à meia-noite naquele mesmo local que o mesmo carro irá pegá-lo para voltar no tempo de novo. As noites encantadas e literárias se repetem, presente e passado se intercalam tendo como pano de fundo toda a magia de Paris.

O filme se torna apaixonante e belo para quem conhece os escritores citados, para quem já leu ou ouviu sobre a excentricidade de Scott, a loucura de Zelda, sua mulher, as frases marcantes de Hemingway, as reclamações e observações relevantes de Gertrude Stein, amiga de grandes mestres da arte e da literatura e também escritora. Não é só isso, o que mais remete a uma identificação latente com o personagem é a vontade que pulsa em cada um de ter a vida do outro, de viver algo diferente daquilo que vivemos ou de viver em outra época, em outro tempo, de outro jeito. Quem dera me descolar dessa realidade daqui vez ou outra e me aninhar numa placenta de fantasia, de perfeições desejadas, coloridas, iluminadas, que só algumas pessoas anseiam. Quem dera quando bater meia noite em Jaraguá poder embarcar no trem e me transportar para algum lugar diferente, mágico, para viver algo que sonhei nas frestas da minha escondida imaginação.  Tem gente que gosta de tudo do jeitinho que é, gosta das coisas desse mundo daqui e isso pode ser bom ou ruim, não sei. Tenho necessidade de desembarcar da vida real de vem em quando.

No filme o rapaz conseguiu se livrar de sua inconveniente noiva, seu livro tinha tudo para ser um sucesso e ainda encontrou uma beldade que, como ele, gostava de andar na chuva, de noite, em Paris. Aqui, a chuva também cai sem parar, prefiro não caminhar lá fora porque está muito frio, mas acredito que depois das doze badaladas o mundo que me separa da janela esconde histórias fantásticas.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas