O melhor lugar para se amarrar seu burro [Daniel Russell Ribas]

Posted on 20/02/2017

6



Daniel Russell Ribas*

Após opinar, muitas vezes sinto-me como viajante em uma fábula: um homem chega a uma cidade, vindo de um local deveras distante. Montado em um burrinho perdigueiro, não se atém aos olhares de estranhamento. “Sou um desconhecido, deve ser por isso”, conforma-se. Ele está com sede; afinal, foi uma longa travessia; e para em um bar para pedir água. Desmonta, mas não encontra um poste para amarrar o animal. O errante aborda o funcionário atrás do balcão. “Com licença, senhor, tem como me informar onde posso amarrar o meu burro?” “Aqui não tem lugar pra burro, só cavalo”, recebe como resposta. Aí, há dois finais: no primeiro, o passageiro resigna-se, monta de novo e busca novas paragens. No segundo, ele xinga o balconista, que devolve e os frequentadores, que não tinham nada a ver com a história, tomam as dores de um dos lados e a bagunça se estabelece.

Tenho por hábito, para citar um amigo meu, botar minha viola na saca, subir no bicho e deixar os equinos a trocarem coices entre si. Às vezes, por inocência ou nem tanto, decido ficar. E calho de dar uma opinião. E me impressiona como algo que soa tão inofensivo pode soar como uma magnânima ofensa. Uma mera sugestão torna-se um julgamento de caráter e questão de honra. As pessoas parecem dispostas a iniciar embates por trivialidades como um cadarço de sapatos ou uma colocação. É sapatear em ex-canino apontar que o cenário político no Brasil tornou esta situação banal quanto reclamar do calor. Uma opinião, por mais equivocada, ainda tem o mesmo valor orgânico que um suspiro ou assobio. Não é ouvida à medida que lhe damos projeção.

Sábado, caminhava com outro amigo, que chamarei de Mestre das Bonecas. Enquanto falávamos sobre eventuais candidatos na vindoura eleição, Mestre das Bonecas, em sua acidez marlboriana, dispara: “Nossa, vocês dão muita força para aquele monstrinho de animê de quinta! Ele não será eleito presidente.” A argumentação subsequente ataca duas frontes. Inicio pela última: seu radicalismo assustaria o mercado, logo, isto impediria sua vitória. Trump, nacionalista que seja, é um empresário veterano, logo teria conhecimento e apoio de bases comerciais. É uma teoria. Finalmente, o que estaria por trás do “poder” da Viúva da Longa Noite. Assusta-me refletir que seus opositores deem tanta validação a esta caricatura grotesca quanto quem que o segue. Sinto-me como em “Harry Potter”, com a diferença de que na Hogwarts tropical todo mundo fala o tempo inteiro dos Comensais da Morte e o nome daquele que não ser invocado. Evidente que não devemos ficar calados perante atitudes abusivas. Entretanto, há um delicado equilíbrio entre denúncia e exposição, e esta linha embaralhou. Logo, regurgitaremos uma bola de pelo maior do que a que as gatas de Mestre das Bonecas costumam.

Em meio a tantas certezas, ninguém mais sabe de nada. O burro, coitado, cansou de andar em círculos e daqui a pouco despenca de exaustão. Enquanto isso, fico na minha mesa, escrevo débeis linhas e observo um cara de peito estufado, que entra e encara aquele que está do outro lado. O burro cai, o barulho começa e me pergunto se aquele burro, no fim das contas, teria realmente saído de algum lugar ou se sempre esteve ali. Faço isso tudo sentado, aguardando o momento efetivo para me levantar. Se é para pedir a conta ou participar da atividade, ainda está em aberto. O burro sonha no chão.

__________

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

Anúncios
Posted in: Crônicas