Desafio vencido [Luís Giffoni]

Posted on 18/02/2017

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Luís Giffoni*

Gosto de desafios. Eles lubrificam os músculos e os neurônios, aumentam o patamar de resistência, alimentam os dias, quebram o glacê do conforto. Quanto mais difíceis, melhores. Exigem ultrapassar limites, vencer o medo. E levantam a terrível questão: vou dar conta?

Também gosto de escalar montanhas. Por quê? Não sei. Talvez porque elas estejam aí, pedindo para ser visitadas. No cume, há sempre a sensação de bem-aventurança. Dizem que é o efeito da endorfina liberada pelo corpo, mas desconfio de algo maior, uma dose maciça daquela força que nos faz seguir em frente na vida, mesmo diante da vicissitude. Ou uma pílula concentrada de Éden ou Nirvana. Ou tudo junto.

Resolvi aliar os dois gostos e subir uma montanha com seis mil e cem metros de altitude, nos Andes bolivianos, o Huayna Potosí. Isso é o dobro do pico mais alto do Brasil, o da Neblina. Eu mesmo desconfiei de minha sanidade no início, mas a vontade me empurrou em frente. A família e os amigos não tiveram dúvida: era loucura mesmo. Ninguém topou me acompanhar. Andinistas (hoje é politicamente incorreto dizer alpinista para quem enfrenta os Andes) experientes, com os quais já havia participado de escaladas, me desaconselharam a aventura. Alguns deles encararam o Huayna e desistiram no meio do caminho. Parti para La Paz sozinho.

Enquanto me aclimatava à altitude, visitei um cume com cinco mil e quinhentos metros, fiz escaladas verticais no gelo e contratei uma empresa experiente nas trilhas do Huayna. Uma semana depois da chegada à capital boliviana, iniciei a aventura. No primeiro acampamento, ouvi os relatos dos que não tinham conseguido. Achei que também não daria conta.

Havia seis europeus em meu grupo, além de dois guias. Todos com menos da metade de minha idade. Olharam para mim com descrença. Com toda razão. A escalada não foi fácil. Saímos à meia-noite. Temperatura doze graus abaixo de zero, vento cortante, neve nos olhos, sede, suor. Sim, suor no frio. O esforço faz suar muito. Depois vem o cansaço. E falta o ar. De repente, o silêncio. Nada além do barulho da respiração e das botas metálicas pisando o gelo, passo a passo. Mais o céu que perdeu as nuvens e ganhou milhões de estrelas, polidas como se feitas ontem. Céu de outro planeta. O encantamento se insinuou.

Atingimos o cume quando o sol nascia. Enxerguei toda a Cordilheira, até o Lago Titicaca. A beleza me arrebatou. O cansaço se foi, a bem-aventurança chegou. Algo como perder os sentidos e me integrar à natureza, virar a própria vida, sem corpo, sem mente, sem peso. Pura Vida. Sensação de ser vento. Se quisesse voar, voaria. Estava no meu próprio elemento. O esforço, uma vez mais, tinha valido a pena.

Revivo agora esta sensação. A escrita me proporciona a volta ao topo do Huayna Potosí. Alcançar o final de uma crônica é sempre uma conquista. Uma escalada à qual o texto nos leva, caro leitor. Você pode desistir no meio do caminho, como qualquer pessoa, mas, se leu até aqui, o esforço valeu. Nosso desafio vencido.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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