Infernais F.C. [Daniel Cariello]

Posted on 16/02/2017

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Daniel Cariello*

Naquele dia, estávamos infernais. Nosso time jogava por música, talvez por causa do entrosamento do André e do Daniel, os gêmeos laterais e violinistas. Tínhamos também o Vander, armador, craque da equipe, e uma dupla de atacantes ligeiros: Fábio e o meu irmão, Pedro. Além de uma retaguarda com o sólido zagueiro Rafael e o goleiro Mingau. Até eu, glorioso perna de pau, tinha meu papel: ocupar espaços vazios, o que fazia com competência, pois fugia sempre da bola. Ao menos, puxava a marcação.

Passávamos as tardes treinando, imaginando uma final de Copa contra a Argentina. Todavia, não foram os hermanos que apareceram naquele dia, mas sim uma parte da temida Turma do Parquinho:

– Duda mandou dizer que vocês vão jogar contra nós.
– Quem é Duda?
– Sou eu mesmo!

Aceitamos. Podíamos ser menores e mais fracos, mas não éramos covardes. No entanto, o embate que se anunciava duro foi interrompido quando ganhávamos de 3 a 0.

– Duda declarou o fim do treino. Às quatro, voltaremos com o time completo.

Estávamos lascados! Eles tinham o Bode, assim batizado graças à habilidade em chifrar o que aparecesse pela frente; o Max, professor de capoeira; e Suíno, Perdigueiro e Salame, trupe de carniceiros conhecida como Trio Ternura. Nosso objetivo já não era ganhar a partida, mas sobreviver a ela. Às quatro horas em ponto, a Turma do Parquinho chegou.

– Duda definiu: time dos fracotes de camisa. Nós, sem. E a bola começa com a gente.

Ninguém se opôs. Duda deu a saída tocando para o Bode, que avançou derrubando os gêmeos, o Rafael e o Mingau. Entrou com bola e tudo. Recomeçamos o jogo, mas Max interceptou um passe e acertou uma bomba de longe, no cantinho. Um massacre se anunciava.

Porém, tal qual um Didi de 58, Vander caminhou com a pelota sob o braço até o meio do campo. Na primeira jogada, cruzou para o André, que tocou para o Pedro. Livre, nosso atacante driblou o goleiro e diminuiu a diferença. No lance seguinte, Rafael armou um contra-ataque e lançou Fábio, que empatou.

A Turma do Parquinho veio com tudo, mas Mingau não tava para moleza. Depois de espetacular defesa, deu um chutão pra frente e a bola veio na minha direção. Tentei tocar pro lado, mas ela bateu no meu joelho e encobriu o goleiro adversário. Estávamos na frente.

A cinco minutos do fim, Max deu nova saída, tocou para Suíno, que passou para Salame, que lançou Perdigueiro. Rafael dividiu, mas levou a pior e precisou sair para se recuperar. Duda enxergou o buraco na defesa e entrou ali para empatar novamente o jogo.

Mesmo com um a menos, sentíamos que podíamos ganhar. E o que aconteceu foi a mais espetacular jogada da história da 712 Sul: Vander driblou dois e passou para o André, que tocou para o Daniel violinista. Este segurou a bola, atraindo a marcação, como fosse o flautista de Hamelin. Então, lançou para mim, que furei, enganando o marcador. Fábio recuperou, fintou o zagueiro e cruzou certeiro para o Pedro, que cabeceou para baixo. Gol! Não havia tempo para mais nada. Celebramos loucamente a vitória e, sem saber ainda, nosso rito de passagem para a adolescência.

Como eu dizia, naquele dia, estávamos infernais.

* Esse texto faz parte do livro Cidade dos Sonhos, lançado em 2015 pelo selo Longe.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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