Me mostraram um filme de amor [Marco Antonio Martire]

Posted on 15/02/2017

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Marco Antonio Martire*

Não quero entregar ao leitor nenhum spoiler de “La La Land”, nem mesmo repercutir demais o filme, já indicado ao Oscar e outros prêmios, mas nosso clima anda tão tropical e raivoso que aproveito qualquer chance para falar de amor. Confesso que “La La Land” me tocou, deu vontade de caminhar por aí depois de assistir, deu vontade de cantar uma canção, até de sapatear e amar deu vontade.

Falo de sapatear e o verbo me remete à parte dolorida da memória: quantas vezes sapatearam com sucesso no meu peito! Impossível contar os sacolejos, eu apenas sei que consegui perdurar. Reconheço também que sapateei também sobre corações, nunca por vingança, juro. Mas eu vou recordando… enganou-me outra emoção.

“La La Land” é um romance brilhando na superfície de um planeta que gira em torno de si arrasado pelos conflitos. Acontece que a nossa espécie tenta assimilar os desastres e daí arranca do peito um filme que fala de amor como se amor fosse papo de nossas mesas de jantar. O amor voltou às paradas, meus leitores, aproveitem porque não será para sempre, logo voltaremos àquela emoção pasteurizada e engana-trouxa dos ensaios filtrados. Em “La La Land” escapamos de ver o amor de mercado, esse é um filme de amor que nos ilude como a gente gosta.

Enquanto escrevo percebo que falar de amor nos constrange, mas o amor veste melhor que fantasia de carnaval. Ao simpático par de atores se permite representar para nós no escuro da sala de projeção um romance banal, ainda que holywoodiano. Seus protagonistas não se destroem, não se matam, não estão mentindo.

Que ilusão! Que presente.

Com “La La Land” na cabeça ouso sonhar com o amor, atravessar a rua, alcançar o metrô, saborear uma cerveja, estou no mesmo lugar de antes, mas posso falar de amor sem ouvir pragmatismos de autoajuda, não é véspera do meu casamento, ou véspera da minha separação.

Alguém falou de amor, falou sim e eu ouvi. Contou uma história com todo o cuidado, colocou até música para que melhor ouvíssemos. Não é uma história baseada em fatos reais, mas não tem de ser. Dizem, dizem, dizem. Parece que falar demais sobre o amor atrapalha esse lance de amar. Talvez. E se alguém ouve? Acontece o quê com quem ouve sobre o amor?

Enfim, quero apenas concluir sobre “La La Land”: não que eu tenha gostado demais do filme, é um tanto mais que isso, gosto é pra valer do assunto.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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