O cérebro da minha avó [Guilherme Tauil]

Posted on 14/02/2017

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Só fui entender que havia algo de grave com minha avó quando ela me preparou um sanduíche de queijo sem queijo. Alheia a qualquer traço de preocupação, a criança não podia reconhecer a gravidade que passou a envolver os jantares da família. Todos se perguntavam o que seria feito da vó enquanto reviravam a comida no prato. Antes de tal lapso lácteo – que descaracterizou a essência do tostex, especialidade incomparável da minha ascendente –, eu ouvia com gosto os relatos das trapalhadas da matriarca, que de repente passou a botar em sua bolsa chaves e documentos alheios, a se desentender com as regras do baralho e a declarar, mais de uma vez por dia, sua admiração pelo Walmor Chagas.

Mas quando me apresentaram a enfermeira que passaria a dormir com ela e me explicaram que eu não deveria me aborrecer se fosse chamado por outro nome, passei a encarar suas travessuras com olhar anuviado de quem testemunha uma senhorinha amorosa se transformar numa idosa acamada. O desmonte da minha avó foi uma ladeira árdua.

Certa vez, num churrasco, cercada por parentes e amigos, ela se aproximou de mim e perguntou baixinho quem era “essa gente feia”. Incapaz de responder que éramos nós, a sua gente, segurei seu braço manchado e comecei a rir uma risada que de início era quase muda, só com os olhos, e aos poucos foi pegando o ritmo até desembestar numa gargalhada, à qual ela se juntou e ficamos os dois ali, de braços segurados, nos olhando e rindo, rindo, rindo. E então percebi que já não tinha mais avó.

Restavam apenas o carinho comedido dos desconhecidos e as lembranças dos momentos bons, sobretudo das histórias que sabia de cor. Quando o colo de vó não era suficiente para me embalar no sono, ela sempre tinha uma fábula, uma narrativa fantástica que ia adaptando ao gosto de cada neto. Eu me pergunto até quando essas historinhas permaneceram arquivadas em sua memória, se foram se descolando aos pouquinhos, detalhe por detalhe, ou se ruiu de uma só vez em bloco, como iceberg, junto com o nome do seu primeiro amor, a receita de pudim e o endereço do filho mais velho.

O Alzheimer comeu sua memória. Levou embora metros e metros de lembranças, quilos de passado. Nada, ou quase nada, ficou intacto. Às vezes imagino o cérebro da minha avó como um salão cheio de gente dançando um bailinho de época que, pouco a pouco, foi perdendo o brilho. Primeiro cortaram a música, levaram as garrafas e começaram a tirar as mesas com os convidados ainda presentes. Depois rasgaram a decoração, afastaram os casais e apagaram as luzes. Quem não foi embora ficou por lá, no escuro, desorientado. De vez em quando, os remanescentes se esbarravam e ensaiavam uma dança, mas que, em silêncio, não vingava. Despediam-se sem jeito e partiam um a um, até que sobrasse um único conviva a tatear o chão, certo de que encontraria alguma taça de champanhe morna, talvez um interruptor que trouxesse a luz de volta e recomeçasse a festa, mesmo que só para ele. Certo de que em algum momento entenderia o que estava acontecendo.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas