O colarinho do bilionário [Cássio Zanatta]

Posted on 13/02/2017

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Cássio Zanatta*

Eu não consigo expressar minha felicidade em ver o colarinho torto do bilionário. Está lá, na foto de capa da revista de negócios: o bilionário com seu terno bilionário, sua gravata bilionária e seu sorriso de dentes todos brancos, tudo arruinado, estragado pelo colarinho da camisa amassado, dobrado para dentro, no maior desajeito.

Quer dizer então que o bilionário é gente e sofre das mesmas humilhações que nós? Já teve espinha, cárie, já pediu baixinho, disfarçando, o palito ao garçom? Sentou na arquibancada do Pacaembú e levou uma laranjada na nuca (ou coisa pior, muito pior)? Já dançou o ragatanga no meio da festa, meio alterado por umas batidas de coco?

Se, como o meu, o colarinho dele pode dobrar, então existe a possibilidade de que eu também fique bilionário. Sei que essas regras de três não se aplicam na vida real, só nas provas que tiravam nosso sono de aflição, mas em todo caso, já vou escolhendo a gravata para a foto de capa.

Opa, ops, mas um minuto. Eu que inventei essa coisa de colarinho torto, por volta de 1980, se não me engano, portanto, exijo royalties. Apenas me esqueci de patentear, mas o garçom do salão da Associação Atlética Riopardense, que é o mesmo há trinte e sete anos, pode comprovar.

O bilionário corta suas próprias unhas? Sei que pode parecer uma pergunta idiota, mas eu sempre tive curiosidade em saber. Ou ele fica lá, sentadão, braço esticado, enquanto a manicure coloca algodão perfumado entre seus dedos e faz o serviço? Vamos caprichar, minha senhora, que esses dedos são capazes de fazer muito dinheiro. Mas não fizeram o colarinho se comportar, veja você. Por essa o bilionário, esteticistas e economistas não esperavam.

Sofrerá o bilionário com futebol? Quando o centroavante perde aquele gol feito, ele grita “uuuuuh”, pulando do sofá e assustando o cachorro? Se gosta de futebol, quanto ele daria para o bandeirinha anular aquele gol do Paolo Rossi na Copa de 82? Como? Ah, o bilionário não faz esse tipo de negócio? Tanto melhor, o maledetto italiano não estava impedido mesmo. E assim ficamos sabendo que o bilionário não faz negócios condenáveis, o que é sempre um alívio e algo bom de saber, ficaríamos muito decepcionados.

Quero então pedir conselhos ao bilionário. Não dicas de como empreender, ser um vencedor, tornar-se um líder, essa bobajada, quero é dicas sobre gravatas, não entendo bulhufas disso e a dele é tão elegante, não entendo porque o colarinho decidiu protestar nessa dobra patética. Ninguém parece estar contente com seu lugar neste mundo.

Devo confessor com certa vergonha que, em casa, quem dá o nó nas minhas gravatas é minha mulher. Eu não saberia por onde começar. Nas três vezes em que usei gravata nos últimos dez anos, ela caprichou: o nó ficou certinho, direito, tanto que o colarinho comportou-se socialmente.

Torço para que o bilionário tenha encontrado uma Beatriz (não a minha, óbvio). E que, da próxima vez, ela faça um nó tão perfeito que a capa da revista fique impecável. Assim, ele nada dirá sobre empreendorismo, dinheiro, certezas, pois saberá que toda a fortuna do mundo não vale o nó e o sorriso de Beatriz.

Veja que eu quero bem ao bilionário. Mas que dei um sorrisinho de lado vendo seu colarinho amassado, ah, isso eu dei.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas