Frases para todos os gostos e desgostos [Raul Drewnick]

Posted on 12/02/2017

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Raul Drewnick*

A velhice é só uma questão de tempo.

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O maravilhoso impulso que nos leva a escrever poesia aos dezoito anos não passa, aos setenta, de mais um erro da juventude.

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Sei o que escrever. Só não sei como.

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Da poesia sempre se espera o extraordinário, assim como se imagina que, por aguda que seja a nota de um violino, jamais será a mais pungente que dele se pode extrair.

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Vamos dizendo que a vida é um sopro, repetindo que a vida é um sopro, até aquele momento em que nos damos conta de que a vida foi um sopro.

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A literatura há de ser um sonho de toda a vida. Que nossas últimas palavras, mesmo aquelas que costumam ser ditas diante de um padre, nos pareçam as primeiras do mais promissor de nossos livros.

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Viver é se perfazer e morrer é se negar. Viver é um modo de ser, morrer é um modo de estar.

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Dizermos que escrever é a nossa vida pode dar aos leitores a ideia de que estamos fazendo com eles a mais desavergonhada chantagem emocional.

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Só quando chegamos ao fim do caminho nos dão as velas para iluminá-lo.

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Um poeta deve considerar-se assim sempre, mesmo que o desminta a própria poesia, mesmo que até ele precise esforçar-se continuamente para acreditar.

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Com um poeta se deve ter sempre indulgência e dar-lhe um desconto para sua incorrigível imaturidade.

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Há mortos tão compenetrados que chegamos a pensar se disfarçadamente não se prepararam a vida toda para a ocasião.

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No final, precisamos mais do que nunca de recato. Um moribundo deve estrebuchar civilizadamente e a um morto cabe comportar-se com dignidade.

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Pobres defuntos, sujeitos até no último dia a falsas declarações de amor, a moscas coceguentas e à impiedade dos perdigotos.

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O amor há de ser visto como foi no seu melhor momento, como a rosa no seu melhor dia.

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Ah, que tempo aquele em que o amor nos fazia dizer palavras que saíam dos lábios como se atendessem à convocação de sedosas borboletas.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas