A quitanda do Armênio [Mariana Ianelli]

Posted on 11/02/2017

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Mariana Ianellli*

Armênio não encontra o que o distraia do vazio. A quitanda herdada do pai continua lá, a mesma de cinquenta anos atrás e tão outra agora que desapareceram seus maiores fregueses, entre eles minha avó, que até o fim da vida alimentou o centro da mesa com suas composições deliciosas. A casa na penumbra, brilhavam mangas, peras e maçãs. Era da quitanda do Armênio que vinham as frutas-do-conde que o avô comia lentamente, gostosamente, com o prazer do melhor dos doces. Era do Armênio que vinham as alcachofras que Matilde preparava com dons de Babette. O palmito das empadinhas que amontoavam em pré-guerra filhos e netos, obrigando a avó a uma distribuição, ao menos nisso, rigorosamente justa. Os morangos frescos do tradicional bolo de aniversário do avô.  As bananas para o doce de Natal. Os mamões para todas as manhãs. Da quitanda do Armênio os brilhos, perfumes e sabores de uma casa em tudo o mais sóbria e veludosa. Da quitanda do Armênio o exagero consentido das cores. A luxúria das formas e dos sumos. As naturezas-mortas preparadas pelas mãos da avó. Uma parte essencial do cotidiano da casa e de suas festas. Sempre o mesmo quitandeiro servindo a mesa, como também sempre o mesmo florista, aquele que, depois de décadas de arranjos de lírios e orquídeas para casamentos e aniversários da família, ofereceu suas flores nas coroas dos velórios. A morte da casa acabou sendo, entre outras coisas, uma fruteira oca e muitos pequenos vasos de violetas minguadas. E a quitanda do Armênio, armazém do tempo em seus espelhos oxidados e seus caixotes, vai morrendo sem pressa sua segunda morte antes da primeira, desbotando, desaparecendo, enquanto continua lá.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas