10 de fevereiro [Madô Martins]

Posted on 10/02/2017

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Madô Martins*

Um velho ídolo do Santos FC está sentado à mesa, na calçada de uma panificadora quase sempre agitada, porque ali se reúnem antigos jogadores e eternos torcedores do time, antes, durante e após as partidas. Percebo sua presença, porque um apaixonado por esportes o  identifica discretamente, com a reverência prestada aos monstros sagrados.

Embora seja leiga no assunto, imagino as histórias que carrega consigo como parceiro de Pelé, e deve repetir, com riqueza de detalhes, sempre que algum interessado na época áurea do time se aproxima. Feliz coincidência vê-lo ali, a poucos metros da janela do carro, justamente quando acabei de descobrir que hoje, 10 de fevereiro, é Dia do Atleta Profissional, no calendário oficial da Cidade.

Informação que só me veio às mãos porque conservo até hoje uma espécie de apostila, do tempo em que integrava o quadro de jornalistas da Secretaria de Comunicação, onde constam todas as datas comemorativas do ano –  livro de cabeceira não só do Executivo, para a realização de eventos, mas especialmente dos vereadores, sempre empenhados em prestar homenagens através de títulos e medalhas que lhes garantam a simpatia do eleitorado.

Quando pequena, era comum as crianças revelarem umas às outras o clube de sua preferência. De tanto ouvir elogios ao alvinegro praiano, dizia ser dele minha predileção, embora raramente assistisse aos jogos ou acompanhasse campeonatos. Claro que me recordo de gênios como Coutinho e Pepe, que, ao lado do Rei, faziam misérias no campo, intimidando os adversários. Mas me encantava mesmo era com a baleia, símbolo do time.

Nunca aprendi, ao contrário dos meninos, a descrever as jogadas, escalar os jogadores, saber os pontos obtidos, o número de títulos conquistados. Assim como jamais tive a experiência de ir ao estádio, disputar autógrafos, trazer para casa a bola utilizada na partida ou o nome do craque assinado na camiseta.

Por tudo isso, mais do que sentir o privilégio de aqui conviver com personalidades marcantes do futebol, quando acontecem encontros ocasionais como o de agora, comovo-me, pensando que o tempo passou para todos nós, eu não mais menina, ele não mais no pedestal da fama.

O antigo craque levanta-se para deixar a mesa e se despede dos amigos. Caminha com dificuldade, a mesma que mostra Pelé atualmente, por força da idade. Seus passos, agora lentos, os cabelos brancos, o corpo não mais atlético dão-lhe a aparência dos avós. O sinal abre, o carro parte, e ainda consigo uma última imagem dele, no retrovisor. Será que sabe que hoje é seu dia?

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 800 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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