Um Carnaval [Carlos Castelo]

Posted on 08/02/2017

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Carlos Castelo*

Quando eu era jovenzito de tudo, passei as Saturnais numa capital nordestina. Evitarei dizer o nome da localidade porque ainda posso ser fuzilado.

Isto posto cheguei ao aeroporto e encontrei a garota que havia me convidado pra ficar lá e aproveitar o samba e a praia. Ela me cumprimentou e disse apontando pra trás:

– Está ali lhe esperando a comitiva de papai.

Eu tinha conhecido a moça na Inglaterra e não sabia nada sobre sua família. Muito menos que o pai dela era senador da República. Quando olhei na direção do saguão estava uma pequena multidão me acenando com lenços brancos. Guardando as devidas proporções lembrou-me a chegada dos Beatles aos Estados Unidos.

Fomos para a residência senatorial e de lá direto pro baile carnavalesco.

O político tinha uma mesa exclusiva na ala nobre do clube. Estavam todos os tios, tias, primos, agregados e puxa-sacos reunidos em torno dele, bebendo whisky e comendo patinhas de siri.

Numa certa altura, cansei da ambience e puxei a amiga pro salão. Notei que ela foi meio a contragosto, o senador inclusive botou uma expressão de censura, mas caímos na boca da dança.

Na noite seguinte repeti a estratégia. Tomei dois Buchanan (com gelo de água de coco) com o senador e família, depois carreguei a garota pra perto da banda de sopros. Quando estava começando a pegar o ritmo veio pro meu lado um mulato magro, muito circunspecto, de roupa social, e se apresentou:

– Zé Maria. Preciso falar com o senhor no balcão do bar. Mande a moça voltar pra mesa.

“Mande a moça…” – achei aquilo meio petulante. Já ia dar uma risada na cara do indivíduo, quando vi o volume do trezoitão debaixo da suada camisa do elemento.

A moça foi enviada de volta à távola. Pedi uma cerveja. Servi-o. Ele mandou essa:

– Olhe, seu menino, sou segurança do senador. Ele está muito preocupado com o senhor dançando com a moça dele no meio do povo. Por que não ficam no derredor da mesa?

– Porque é chato dançar carnaval em cima de uma família – expliquei, tomando um bom gole da gelada.

– Pois então dance no salão, não tem problema, menino. Mas saiba uma coisa, o povo daqui é ignorante. E o senhor é um cabrinha frouxo e abestado. Logo vão lhe meter uma sudenga no escutadô de forró e o menino vai voltar choramingando pra mesa.

Fiquei tão abismado com a fala que não disse palavra. Ele seguiu:

– Faça assim: se alguém lhe der uma tapona no quengo ou mexer mais a menina, aponte o dedo e eu queimo bem aqui do balcão. Sou lotado na Secretária de Segurança, basta mostrar o caboclo.

Na segunda-feira gorda decidi pular o carnaval sozinho, à beira mar, vendo o bloco dos sujos. Só entrava no clube pra me abastecer de cerveja. E lá estava sempre no mesmo balcão, fazendo sinal de positivo, o Zé Maria.

Felizmente não matou ninguém. De lá pra cá mudou muito o Carnaval. Mas os Zé Maria continuam os mesmos por aí.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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Posted in: Crônicas