Condor Copacabana [Daniel Russell Ribas]

Posted on 06/02/2017

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Daniel Russell Ribas*

Fui ao cinema sozinho pela primeira vez no saudoso Condor Copacabana, atual endereço de uma loja de varejo. O filme, “A experiência”, sobre uma alienígena mortal no cio, foi divertido, embora não memorável como a sensação inicial de autonomia que percorreu minhas veias. O Condor foi uma das últimas grandes salas de rua do Rio de Janeiro. Passava exclusivamente filmes da distribuidora CIC, que lançava na América Latina material dos estúdios Paramount, Universal, MGM. Não me recordo quantos lugares, mas era imenso para uma criança ou mesmo um pré-adolescente. A tela era um majestoso retângulo de que transbordava a grandiosidade de suas figuras. Com estes astros alinhados, o Condor se transfigurou em meu contato primordial com o extraordinário em nossas vidas. Um dos meus lugares favoritos na época, pois era a fuga de uma realidade solitária e grave.

As lembranças do fim dos anos 80 e 90 são esparsas. Em parte por bloqueio, outra devido à monotonia. Num prédio sem crianças e muito protegido do mundo exterior, as recordações se resumem ao tom sépia do apartamento à tarde, regado ao odor do cachimbo de meu pai e uma onda de “So far away”, do Dire Straits, no rádio. Com uma criação pouco ou nada ortodoxa, é um alívio ambíguo perceber agora que tive isto em comum com diversas crianças dos anos 80: a solidão na companhia de quatro paredes. Meus Comandos em Ação, Legos e Playmobils se tornaram mundos construídos e desfeitos aos caprichos do pequeno deus mirim. Filmes o mar em que me curava a dor de perseguição. Livros o lugar onde eu desbravava um universo fascinante além da janela gradeada.

No período anterior a Collor, minha família possuía uma confortável situação financeira. Logo, como distrair um bebê sem ter que se desgastar com interação ou algum envolvimento do gênero? Brinquedos e… cinema. Por alguma razão, eu sempre amei filmes e meus pais me levavam com frequência. Caramba, o que era o Cine Veneza, com sua opulência cafona… Parecia especialmente feito para exibir “Fantasia”, em que Mickey conduzia as águas com o conforto que a largura do local permitia. Ou o Roxy, quando era apenas um, e não três salas que lutam para sobreviver… O Star Ipanema, quando tive contato com a melancolia e estética através de “Edward Mãos-de-Tesoura”, saindo boquiaberto com o impacto visceral. (O mesmo cinema me proporcionaria algo similar, embora em outro sentido, quando vi “Seven – os sete crimes capitais”. Essa ocasião foi especial também, pois foi quando cometi minha primeira transgressão: assistir a um filme proibido para minha idade. Acredito que fui beneficiado pelo fato de que o cinema estava prestes a fechar e, há aquela altura, não se importavam.)

O Condor Copacabana era meu favorito. Não apenas porque os filmes a que realmente aguardava passavam lá, mas por ser quase isolado. Ficava dentro de uma galeria, cujas entradas direcionavam à sala, na interseção dos corredores. Apesar de sua vastidão, lotava com facilidade, com famílias se espremendo para ver as novas palhaçadas do Leslie Nielsen ou adolescentes para conferir a nova investida maníaca de Chucky. Passava pelo salão da bombonière, em que as paredes ostentavam cartazes de filmes que ainda seriam exibidos. Com brilho nos olhos, criava histórias para cada uma daquelas imagens. Exceto “Brinquedo assassino”, deste eu desviava com gosto. O Condor Copacabana foi mais do que uma babá, tornou-se meu xamã, o índio velho que chamava para relatar causos do mundo além dos humanos. Chegava em casa num estado que me punha a desenhar o que seriam as sequências dos filmes que assistira.

Com o passar do tempo, as coisas mudaram. O Condor, como muitos cinemas de rua no Rio de Janeiro, agonizou a incerteza da economia do país e a indiferença dos frequentadores, que buscavam a novidade dos cinemas de shopping. Quando fui ver “A experiência”, em meados dos anos 90, a sala estava praticamente vazia. Pude escolher o assento que quis dentre vários vazios. Senti-me como um rei. Mais tarde, descobriria que meu reino tinha sido abandonado. Pouco depois, de maneira discreta, o Condor jogou a toalha e deixou de ser um cinema poeira para se virar pó dos tempos. Ainda hoje, guardo a certeza não-dita de que meu contato com literatura e o extraordinário começou lá. Foi naquela sala de cinema que descobri que estamos próximos da magia. Basta pagar o ingresso. A questão é achar a bilheteria.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura”, que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.

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Posted in: Crônicas